09 de Setembro de 2013

Reportagem Público 08.IX.2013

 

Faltam duas horas e eles vão-se juntando à porta de um hotel, do lado de lá da Av. da República, em frente à praça de toiros do Campo Pequeno, em Lisboa. Não fossem os sacos que todos têm a seu lado, no chão, nada os distinguiria dos jovens que por ali passam a caminho do metro. Falam baixo, e quase nada. Mas percebe-se que há expectativa e tensão no ar. Daí a pouco, já no interior do hotel, um deles, Vasco, decidirá uma estranha coisa: quem se farda e quem não se farda.

Fardar-se significa poder enfrentar, sem qualquer defesa, os cornos de um animal de 600 quilos que faz parte da festa deles, mas que não está ali para festas. Não se fardar, e é isso que acontecerá a metade daquelas três dezenas e meia de jovens, equivale a ficar nas bancadas da praça. Como mero espectador.

"Fardar-se é um prémio para os mais experientes e para os que estão em melhor forma. Desta vez não tive essa sorte", lamentará depois um deles. Mas, entre os 18 eleitos, só alguns terão o privilégio, assim o consideram unanimemente, de alinhar nos grupos de oito que Vasco, o cabo dos Forcados Amadores de Alcochete, designará naquela noite do meio de Agosto para pegar cada um dos três toiros que lhes couberam na corrida.

Escolhidos os que se vão fardar, o que se segue no corredor e em dois quartos do sétimo piso do hotel é um demorado processo de transformação de rapazes iguais aos outros em figuras coloridas, de meias brancas rendadas, calções justos e jaquetas de ramagens. Terminada a fardação, com a ajuda de alguns dos que não tiveram a tal sorte - sobretudo no aperto da cinta vermelha de quase cinco metros, que lhes vais cortar a respiração, mas proteger as costelas e o externo -, aí estão eles prontos para o que der e vier.

Reunidos à volta da cama de um dos quartos, vestidos a preceito, abraçados ombro a ombro, é a altura do cabo, irmão e comandante, romper o silêncio sepulcral: "Malta! Agora há que deixar o stress, a pressão, aqui no quarto e respirar fundo. Agora chegou o momento de fazer o que gostamos com galhardia e arte." E logo a seguir ao grito colectivo - "Viva o nosso grupo! Viva!" -, repartem abraços e palmadas sonoras nas palmas das mãos uns dos outros e lá vão eles, a pé, a caminho do Campo Pequeno. Vasco Pinto, 31 anos, forcado desde os 16, cabo do grupo e relações públicas de uma grande empresa de distribuição comercial, beija a mão direita e a jaqueta, benze-se e fecha a porta do quarto.

A atravessar a Av. da República, alheio ao ruído ensurdecedor das panelas e buzinas dos grupos antitouradas, Diogo Van Den Toorn, um gigante de 25 anos, filho de pai holandês, ignora o protesto, tal como os outros, e relativiza a única coisa que lhes vai na alma. "Claro, há ansiedade. Mas é uma ansiedade positiva de quem quer fazer bem as coisas."

 

A arte de abraçar o toiro

 

Já na arena, o toiro Primillo, nascido em 2009, irrompe como um foguete, com os seus 608 quilos.

Os rapazes de Alcochete estão atrás das barreiras que rodeiam a arena, silenciosos, em frente aos colegas do Aposento da Moita, a quem foram destinados os outros três animais. Vasco, afastado do grupo, benze-se repetida e discretamente. Observa o toiro com cuidado, estuda-o em pormenor: a forma dos cornos, a maneira como investe contra o cavalo e o cavaleiro que lhe crava as farpas. É o momento de decidir, sozinho, quem, entre os 18 fardados, irá fazer o quê. Em especial quem será o homem da cara, aquele que irá na frente.

Ruben Duarte, 27 anos, mais pequeno do que grande, é o escolhido. Brinda a pega a Nuno Carvalho ("Mata", por alcunha), o companheiro de grupo que está numa cadeira de rodas, nas bancadas, no meio do público entusiástico. Há precisamente um ano, naquela mesma praça, sofreu uma colhida dramática que o deixou tetraplégico.

Dois ou três minutos depois, é Ruben quem jaz inanimado na areia vermelha, à mercê de Primillo. Levado pelos socorristas e pelos colegas (com um traumatismo craniano que se resolveu depois da passagem pelo hospital), o seu lugar é imediatamente ocupado por Tomás Torre do Vale, 22 anos.

O toiro mantém-se indomável. Tomás, depois da alguns segundos aninhado lá em cima, entre os cornos do animal, é também atirado pelo ar. Consegue levantar-se, com o nariz e a boca a escorrer sangue, já sem sapatos, e retoma o seu lugar, com o passo inseguro. Pela segunda vez, repete a aproximação ritual (citar, parar, templar - diz-se na gíria taurina), debaixo do silêncio angustiado do público e do olhar compenetrado do cabo. Chama o toiro, avança destemido, inebriado, sem que transpareça uma sombra do medo que ele supera. Sabe-se lá como e porquê. Recua e tenta o encontro, o encaixe, a reunião, a união, o abraço, o beijo - tudo palavras que eles usam para nomear a mesma coisa, a pega, "a arte de abraçar o toiro".

Mas não, Tomás não consegue. O derrote, a sacudidela monumental da cabeça de Primillo, fá-lo voar pela segunda vez, antes que os outros sete consigam ajudá-lo. Vasco, atrás das tábuas das barreiras, de braços cruzados e semblante carregado, benze-se, beija a jaqueta, domina as emoções como quem rasga a pele a frio. Dá instruções aos seus homens e Tomás, que assim o quer, vai à terceira. Novamente descalço e coberto de sangue.

Atrás das barreiras e nas bancadas bem compostas de aficionados, vestidos de cores garridas, entre eles muitos jovens e até crianças, a expectativa e a ansiedade fazem suster a respiração. Tomás avança, lentamente. O resultado repete-se. Passados uns segundos está estendido no chão, sem se mexer.

Ergue-se logo a seguir, a grande custo, a cambalear, enquanto os companheiros o amparam, agora já com menos um dente na boca. Mesmo assim esboça o regresso, tenta em vão voltar para o toiro, mas sai em braços, com o cabo atrás e os aficionados a aplaudir vibrantemente.

Os de fora, os que não são dali, interrogam-se seguramente: o que é isto? Como é que pode ser?

 

Sentir o medo e controlá-lo

 

A noite não será de glória (como eles dizem) para os amadores de Alcochete. Primillo acabará por ser imobilizado de cernelha, por dois homens, um deles com a jaqueta empastada de sangue próprio e do animal. Os outros dois serão pegados à segunda tentativa, um pelo cabo Vasco, que lhe falou baixinho - Eh toiro! Eh toiro!, quase num sussurro. "Pegámos os toiros todos, é o mais importante", diz já em frente à praça o meio holandês Diogo. O menos desanimado de todos é Nuno Mata, que ali confraterniza, na sua cadeira de rodas, com os amigos, familiares, namoradas. E com os vizinhos e vencedores da noite, os amadores da Moita, que ali fizeram grandes pegas. "A primeira coisa que pensei depois do acidente foi em voltar à arena." Para ele, é assim que se enfrentam os desaires.

O que é que faz estes jovens correr para os cornos do toiro? Exporem-se à morte gratuitamente, sem sequer ganharem um cêntimo para o fazer? "Quando vamos para lá, não pensamos nisso. Vamos para desfrutar um momento único na vida", explica João Salvação, 32 anos, filho de uma família de aficionados e forcados, cabo do outro grupo de Alcochete, o do Aposento do Barrete Verde de Alcochete, e empresário de piscicultura. "Só quem já o fez é que pode saber o que é." E ele fá-lo desde os 13 anos. Sabe bem o que é, já foi colhido várias vezes e há quatro anos ganhou para toda a vida a marca de uma grave colhida em que perdeu o olho direito. Mas isso são ossos do ofício, coisas que só vêm à conversa lá muito para diante.

"Sentir o medo e saber controlá-lo. Ir calmamente em direcção ao toiro. Ir buscar forças ao imaginário para ficar na cara do toiro. É quase orgásmico quando as coisas correm bem." João Ventura, 23 anos, gestor de base de dados numa empresa de informática, reside em Meleças (Sintra) e pega há três anos com o Aposento da Moita. A sua explicação, sobretudo a "orgásmica", colhe o aplauso dos companheiros, numa esplanada da vila ribeirinha. "Além da satisfação pessoal e da paixão pelos toiros, move-me o facto de estar ali, perante um grande desafio, entre amigos, numa família."

José Pedro Pires da Costa, cabo deste grupo e filho do seu fundador, insiste naquela que todos apontam como a mola que os empurra: "É o desafio de ultrapassar a barreira do medo." As palavras não lhe chegam. "Quando a pega é concretizada e o toiro pára, a sensação é indescritível." Tudo isto parece contraditório, reconhece, falando de riscos e afectos. "Enfrentamos um toiro com 500 quilos e ali na praça damos beijinhos uns aos outros." A síntese é curta: "Ser forcado é ser forcado..." - "É tudo", completa João, o informático delicado que pesa todas as palavras.

Vindo de outra geração e de uma família onde os toiros e os cavalos fazem parte da casa desde há muito, o gestor Domingos Figueiredo, 50 anos, filho do marquês da Graciosa, tem idade, e autoridade, para falar de outro modo. "Pegar toiros é uma pessoa querer superar-se a si próprio. A história da adrenalina, dos desportos radicais. É andar no limite. Dominar o medo." Para ele, que andou dos 18 aos 23 anos num "grupo elitista", o dos Amadores de Santarém, "o medo é o estado permanente do valente". Mas não é só o desafio de o vencer que os puxa para aquilo. "Há aqui também uma coisa [de que só ele fala] que tem que ver com as miúdas. As mulheres têm uma atracção especial pelos forcados."

Nuno Inácio, 26 anos, estudante de Agronomia e filho de uma família ligada aos cavalos e ao campo (produtores de vinho em Alenquer) não vai por aí. Salienta que "há momentos cruéis" para os forcados, mas garante que nessas alturas, quando as coisas correm mal, a expressão "nunca mais" não lhe vem sequer à cabeça. "O que pensamos é fazer melhor da próxima vez. É uma maneira muito gratificante de estar na vida." Nuno Inácio pega com o Aposento da Moita desde os 16 anos e identifica uma outra razão para fazer o que faz. " É a passagem de um testemunho de valores, dos mais velhos para os mais novos" - uma ideia presente em muito do discurso que os forcados elaboram sobre eles próprios.

"É poder contribuir para uma arte e para uma festa que nos distingue como povo", considera Vasco Pinto, o cabo dos Amadores de Alcochete. E o que é que ganham com isso? "O carinho, a amizade dos membros do grupo, dos amigos e dos familiares. E o reconhecimento do público", responde Vasco, que este mês concorre à presidência da Câmara de Alcochete, como independente pelo CDS.

Nas explicações dos forcados, para lá da linguagem que remete para conceitos de pátria e para valores ancestrais com pouca cotação no tempo actual, são recorrentes as alusões à festa. O que é a festa, Vasco? "A festa é o sentimento de partilha e de união que existe entre todos os intervenientes [no espectáculo]. São horas de angústia e de glória que se partilham."

 

Jovens iguais aos outros

 

Feitas as contas, os quase 50 grupos de forcados amadores existentes em Portugal (não há profissionais desde meados do século XX), todos a sul de Coimbra, sobretudo no Ribatejo, no Alentejo e na ilha Terceira (dois), reúnem 1300 a 1400 jovens com idades entre os 17 e os 33 anos - raramente um pouco mais. A estes há ainda que somar alguns milhares, de sucessivas gerações, que já deixaram as arenas, mas que continuam a acompanhar a vida dos grupos em que passaram a juventude.

Entre os que estão no activo, e são cada vez mais, garantem eles, a média de idades ronda os 22/23 anos. São maioritariamente estudantes, embora haja muitos profissionais de todos os ofícios, incluindo engenheiros, médicos, militares, empresários ou trabalhadores indiferenciados.

Grande parte vem de famílias que partilham o gosto pelas actividades tauromáquicas, muitas delas com ligações ao campo e aos cavalos. Alguns são filhos de famílias abastadas, por vezes da antiga nobreza. Outros há que não correspondem a este cliché e estão mais perto das origens. Quando os moços de forcados eram gente pobre e os ricos eram cavaleiros. E há grupos mais elitistas e outros mais populares. Até os há que, politicamente, têm uma história que se cruza com a direita e outros com a esquerda. Certamente mais com a primeira. Também os há, ou pelo menos há membros seus, que se aproximam dos estereótipos do arruaceiro, do machista, do marialva. Como há forcados educados e sensíveis, que estão a léguas de distância do que os seus adversários vêem neles.

Nas apreciações que fazem de si próprios, sobressai a ideia simples de que são jovem iguais aos outros. Com uma característica essencial: estão ligados por uma amizade única, pelo companheirismo e pela camaradagem. "A amizade que se gera entre os forcados é muito diferente da que existe no futebol. Nos forcados damos o corpo pelos amigos, corremos risco de vida juntos. É outra coisa", argumenta Miguel Jacob, um homem de 43 anos que esteve no Aposento da Moita entre 1982 e 1987 e hoje trabalha na área comercial de uma empresa. "O Aposento, que continuo a acompanhar, foi para mim uma escola de virtudes. Arranjei amigos para o resto da vida, mesmo noutros grupos."

Semanas depois, Nuno Mata, sentado à mesa da esplanada da Moita, interrompe a troca de mensagens que já consegue digitar com as talas que lhe prendem os dedos. Bebe um gole da mini que um dos amigos lhe leva à boca, e atira na mesma direcção. "Há pessoas que entraram aqui sem qualquer tipo de educação e saíram de cá uns senhores. Os forcados são a tropa que muitos não tiveram."

A ligação entre eles é tão forte que entre Outubro, quando acabam as corridas e as pegas, e Fevereiro, altura em que começam os treinos nos "tentaderos" da região, tudo serve para se manterem em contacto. Sobretudo com os que vivem mais longe. "Inventamos desculpas para estarmos juntos sem levarmos na cabeça das namoradas", confessa Nuno.

E quando a hora de partir se avizinha, por volta dos 30 anos, a separação é uma dor que se anuncia. "Todos os anos estou para sair, a família pressiona, tenho uma filha de ano e meio, mas não consigo." Este é Francisco Baltazar, um dos dois que já casaram, entre os 38 do Aposento da Moita, e que se viu obrigado pela crise a trocar os cavalos pelos automóveis. "Sou licenciado em Equinicultura, cheguei a trabalhar numa coudelaria, mas fiquei desempregado. Agora trabalho na linha de montagem da Autoeuropa. É mais bem pago e mais seguro."

 

Por amor à camisola

 

Uma das coisas que muitos forcados têm em comum nos longos invernos sem toiros é uma outra paixão violenta, a do râguebi. "Joguei futebol, mas não tem nada que ver com o râguebi. Não é um jogo individual [o râguebi], é muito mais um desporto de equipa. É como os forcados: joga-se por amor à camisola", observa Nuno. "No râguebi há igualmente o espírito de grupo, o contacto físico, mas também é uma moda, como para os forcados da ilha Terceira é o basquetebol, talvez por influência dos americanos", acrescenta José Maria Bettencourt (20 anos e seis toiros pegados como forcado da cara nas 15 corridas em que o grupo já participou nesta época, nove das quais em Agosto).

José Pedro, o cabo, não ignora as críticas e as opiniões negativas que muita gente tem deles. "É claro que há quem nos veja como uns bárbaros, arruaceiros, bêbados. São rótulos que nos perseguem, mas que não têm nada que ver com a realidade de hoje", afirma. Sem excluir os excessos que por vezes acontecem, "como em todo o lado". Nuno Mata tem o ascendente que lhe dá a grandeza e a força anímica com que encarou e vive o desastre. Para lá dos dez anos que pegou quase sempre na frente, cara a cara com o toiro. "Não somos flores de estufa, samaritanos intelectuais. Somos jovens." O que quer dizer, subentende-se, que gostam de beber e que por vezes há quem vá longe de mais.

A Nuno Inácio, o de Alenquer, custam-lhe as generalizações. Fala do "brio, dignidade e orgulho" com que se dedica a esta actividade e acha que actualmente os forcados, globalmente, já não são malvistos como noutros tempos. "Somos queridos pela sociedade e pela população da Moita. Toda a gente nos conhece, toda a gente gosta de nós." Na perspectiva de Vasco Pinto, um dos cabos de Alcochete (os dois são primos), a imagem que nalguns meios persiste deles não passa de um "mito" sem razão. "Não andamos na festa dos toiros para partilhar discotecas e copos. Isso é uma consequência da nossa vivência com os outros. Um forcado é um estudante, um administrador, um contabilista, um profissional seja do que for, igual aos outros. Não é por se ser forcado que se tem uma atitude diferente face às mulheres. É o mesmo que dizer que os adeptos do Benfica têm todos bigodes."

E aqui já estamos a falar de mulheres, de machismo, marialvismo, outros tantos epítetos que lhes estão grudados à pele. João Ventura, o informático que não tem raízes familiares na chamada "festa brava", nunca sentiu a condenação feminina. "Acho que as minhas colegas têm alguma admiração por eu ter uma actividade um bocado invulgar. Olham-me como um maluco, mas no bom sentido. Há um certo fascínio pelos forcados."

Motivos para ser de outra maneira também não os vislumbra. "A maior parte de nós somos pessoas bem formadas, com cursos superiores, com objectivos na vida." O que lhe parece é que os seus colegas de trabalho têm em relação a ele uma "sensação de estranheza". A pergunta mais frequente é esta: "Não tens medo?"

 

Homens valentes

 

Quase trinta anos mais velho, Domingos Figueiredo tem um olhar que alguns mais novos talvez partilhem, mas não verbalizam, até porque a relação entre os jovens dos dois sexos são agora outras. A ideia, já expressa antes, é a de que as mulheres, em regra, gostam dos forcados. Mas no seu tempo, pergunta-se-lhe, elas não receavam o lado violento das práticas taurinas? "Não, porque nós queimávamos o excesso de testosterona nas praças", responde, desarmante.

As explicações mais fisiológicas levam aliás o empresário a afirmar que a explosão do número de forcados ocorrida depois do 25 de Abril se deveu ao fim da guerra de África. "Os homens precisavam de eliminar o excesso de energia e de agressividade. Os homens são agressivos, somos predadores, é preciso não esquecer."

A confirmar que o mundo dos toiros é complexo e pouco adequado a julgamentos apressados, aí estão as palavras de Piedade Salvador, uma mulher de 63 anos que no início de Agosto participou na sua terra, Samora Correia, na apresentação de três livros do histórico forcado Eurico Lampreia (63 anos também). Convidada pelo autor a falar sobre mulheres, Piedade, conhecida como a "poetisa do povo", não poupou as palavras para dar forma a um discurso comprometido, profundamente feminista, sobre a "luta pela libertação das mulheres". Em defesa "das que não têm voz", contra a "violência doméstica e os maus tratos". E quando os que a não conheciam, boquiabertos, esperavam um golpe de misericórdia nos seus anfitriões, Piedade acabou a lembrar algumas mulheres que foram "autênticas rainhas da festa". Da festa dos toiros, entenda-se.

Para ela, disse-o depois, não há por aí contradições. "Eu falei aqui das mulheres que sofrem, daquelas que estão totalmente à parte do mundo de que fala o Eurico nos seus livros. Mas eu sou uma aficionada, gosto imenso do trabalho dos forcados. Para mim, quando os vejo na praça, são homens valentes, homens de raça, homens de coração. Mesmo que por vezes aconteçam com eles coisas que não deviam acontecer." Mas isso não é uma característica específica dos forcados. "Eles não são necessariamente machistas. Pode haver casos pontuais, como em tudo na vida, mas nunca me pareceu que fossem mais violentos do que os outros."

Como que a desculpar-se, Piedade vai buscar à infância, e ao ambiente do seu Ribatejo natal, o gosto por esta maneira de os humanos se relacionarem com os toiros. "Sempre a vi como natural. O meu avô era campino. Quantas vezes o vi, para fugir deles, a espetar-lhes a vara. Não encontro aí uma crueldade tão grande como algumas pessoas apontam."

Agora é a vez do outro anátema, a crueldade, que pesa sobre os ombros dos forcados, menos é certo, do que sobre os restantes intervenientes nestes espectáculos. "O toiro é o animal que mais respeito e mais admiro. E já peguei 144", afiança Vasco Pinto, tal como o fazem praticamente todos os aficionados. Então porque é que o incomoda? "Não o incomodo. Só o tento domar. Não há ninguém no mundo que respeite tanto o toiro como os próprios intervenientes na festa brava."

Miguel Jacob, por sua vez, considera o toiro como "o animal mais bonito e nobre que existe". E sustenta que os forcados não lhe fazem mal. "Tratamo-lo bem. Damos-lhe dignidade. Ele é criado exclusivamente para aquilo. É na praça que realiza a sua missão. Cavaleiro, toureiro e forcado contribuem para isso. Nós estamos ali para nos divertirmos com dignidade e respeito. Não estamos para humilhar ninguém."

À porta do Campo Pequeno, no última noite em que lá actuaram os grupos da Moita e de Alcochete, havia dezenas de pessoas que não tinham a mesma opinião e a manifestavam com palavras de ordem e cartazes pouco simpáticos. "Não ligamos", dizem quase sempre os forcados. "Desde que me respeitem, estão no seu direito. Claro que não é agradável ouvir gritar "rapazes educados não são forcados"; mas não me dirijo a eles", comenta o educadíssimo Nuno Inácio, que acabara de ser premiado com o troféu da melhor pega da noite.

"Eles têm o direito de nos criticar, como nós temos o direito de participar numa festa que é reconhecida pela Constituição da República no âmbito da liberdade cultural", defende também Vasco Pinto.

Num outro plano, estão os amigos que não pertencem ao círculo dos amantes das touradas. "Tenho alguns que não ligam, nem sequer gostam", conta Nuno Inácio. O cabo do seu grupo, José Pedro, também os tem, mas daí não lhe vêm problemas. "Partimos do princípio de que quando são nossos amigos nos compreendem."

É de compreensão que fala igualmente Diogo Van Den Toorn, o forcado de Alcochete que é também um dos capitães da equipa de râguebi do Sporting. A família holandesa não tem nada que ver com toiros, mas não o condenam. "Acham piada. O povo holandês é muito aberto. Vêem na televisão e gostam."

O outro Nuno - o que há um ano deixou os amigos destroçados, mas "conseguiu ser ele e a namorada, que tem sido extraordinária, a dar força ao grupo para vencer o drama" que os atingiu a todos (palavras de José Maria Bettencourt) - até tem amigos que "são antitaurinos". O que não admira, porque tal como Diogo vem de dois mundos. "Os meus avós maternos são angolanos, não tenho ninguém da família nos toiros." Nuno assegura, porém, que os amigos antitaurinos, entre os quais antigas namoradas, acrescenta com uma gargalhada, "sempre respeitaram" as suas opções.

E valeu a pena Nuno? Ou não voltaria fazer o que fez? "O que me aconteceu, ficar tetraplégico, aconteceu a fazer aquilo de que gostava. Podia-me ter acontecido, como a alguns rapazes que conheci no Alcoitão [clínica de reabilitação], a dar um mergulho. E agora eu era quem? Não tinha identidade! Não tenho qualquer tipo de arrependimento."

 

http://www.publico.pt/temas/jornal/ser-forcado-e-ser-forcado-27040004

publicado por Santos Vaz às 18:32

mais sobre mim
pesquisar
 
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Setembro 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


arquivos
2017:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2016:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2015:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2014:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2013:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2012:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2011:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2010:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2009:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


Contador

Contador de visitas Saúde
blogs SAPO