27 de Novembro de 2012

 

 

 

Luís, o seu nome completo é Luís Armando Ferreira Vicente. De onde lhe vem o nome de Rouxinol?
Olhe, o meu avô tinha essa alcunha de Rouxinol. O meu pai foi cavaleiro amador e fez várias garraiadas e era também conhecido por Alfredo Rouxinol e eu, depois quando comecei era o Luís Rouxinol e assim fiquei.

 

O Luís sempre quis ser cavaleiro? 
Sim, o meu pai sempre teve cavalos, andou muito tempo de cavaleiro amador e eu recordo-me perfeitamente das primeiras vezes que pisei uma arena, tinha eu 6 ou 7 anos e o acompanhava nas garraiadas que ele fazia. Eu fazia as cortesias. Lembro-me de o acompanhar na Chamusca, Moita, Setúbal e a partir daí foi um pequeno grande passo para me apaixonar pelos cavalos e pelos toiros e decidir a vir ser cavaleiro.

 

Fez a sua apresentação em público onde?
A minha apresentação em público foi em Paio Pires em... 78, tinha eu 8 anos, a tourear uma vaca. Depois, mais a sério, foi numa garraiada do Liceu de Gil Vicente, em 79, em Lisboa, a tourear com o Afonso Correia Lopes, o Rui Salvador e o Ernesto Manuel, como aspirante a novilheiro. Essas garraiadas nessa altura tinham bastante impacto. Nunca tinha toureado um novilho na minha vida e a partir daí as coisas correram muito bem. Fui considerado o triunfador. O que foi uma grande surpresa para mim, nem eu estava à espera disso.

 

Teve muitas dificuldades no início da sua carreira?
Muitas, todas as dificuldades que possam imaginar. Isto é um mundo difícil, uma vida difícil. Não tinha o que têm alguns cavaleiros que hoje estão a começar: pais que foram ou são figuras. O meu pai foi apenas amador, nunca quis seguir com isto. As coisas foram muito difíceis mesmo mas com muito trabalho muita dedicação - eu via em praça que tinha valor para continuar - e com muita ambição, Graças a Deus, consegui.

 

Guarda alguma recordação especial dessa altura de amador e praticante, uma data marcante...
Essa garraiada de que lhe falei, do Liceu Gil Vicente. Lembro-me do Maurício do Vale telefonar ao meu pai a perguntar se eu queria participar nessa garraiada. Nunca tinha toureado um novilho na minha vida, tinha toureado meia dúzia de vacas. Chego ao Campo Pequeno e o meu pai foi ver o novilho, o novilho toiro do António Barbeiro com 410kg. O meu pai até teve algum receio de que eu participasse. Até me lembro de um amigo nosso que já partiu, o António José Perdigão dizer: “Deixa o miúdo tourear que as coisas vão correr bem.” E, Graças a Deus, correram.

 

Como é que surgiu na sua vida o Sr. Mário Freire?
Eu tirei a alternativa em 87 e logo nessa altura o Sr. Mário Freire surgiu na minha vida, por intermédio de alguns nossos amigos. Já conhecíamos o Sr. Mário há muito tempo. Sabíamos que era uma pessoa muito conceituada no mundo dos toiros e andávamos há um ano ou dois atrás dele para que fosse meu apoderado. Uma vez, após uma feira da Moita, chamámo-lo de parte e estivemos um bocadinho a falar com ele. Respondeu: “Deixa lá Luís, em tudo o que eu puder ajudar... Arranjar algumas corridas... Vou tentar mas neste momento tenho o Luís Miguel da Veiga e o Mário Coelho.” Ou o Armando Soares, um toureiro desses. “E eu não gosto de ter muitos toureiros ao mesmo tempo, mas um dia que haja essa oportunidade, vou-te apoderar.” Depois passado dois ou três anos de eu tirar a Alternativa acabou o apoderamento com o Luís Miguel e eu pensei: “É a altura certa para ir falar com o Sr. Mário.” E, através de alguns amigos nossos, fomos falar com ele. Ele disse: “Pronto, eu vou-te ajudar. Este ano vamos fazer uma experiência. Vou-te só ajudar, não divulgamos como apoderamento, para ver como correrem as coisas.” Eu compreendo... Ele não sabia se as coisas iam funcionar... As coisas começaram a correr bem e foi meu apoderado durante 22 anos. Foi uma pessoa bastante importante na minha carreira, uma pessoa que me ajudou. Eu penso que dentro da praça também ia correspondendo às oportunidades que surgiam. Eu lembro-me de ele me dizer: “As coisas são difíceis, as oportunidades têm que se agarrar.” Penso que agarrei o maior número possível delas e conseguimos.

 

Foi um grande amigo para si?
Era um grande amigo, era um grande homem, um grande apoderado. Nunca tivemos uma discussão, nada. Tivemos algumas divergências mas coisas sem importância. Foi mesmo um grande homem, era como se fosse da família.

 

Tomou a alternativa em 87. Santarém, praça esgotada, das mãos do João Moura, vencendo o troféu em disputa da corrida do Despertar. O que sentiu nesse dia?
O Sr. Manuel Gonçalves, que também foi muito importante numa fase da minha carreira e que, quando aqui algumas portas estavam fechadas, deu-me a oportunidade de tourear muito em França, antes da minha alternativa.Toureei lá muitas corridas, com grandes triunfos. E o Sr. Manuel Gonçalves dizia-me sempre: “Deixa lá que o dia em que tomares a alternativa será numa das corridas que eu organizo e numa das importantes”. E surgiu a oportunidade de tirar a alternativa na corrida da Despertar da Rádio Renascença, uma das mais importantes do calendário taurino dessa altura, e que infelizmente já não existe. O Sr. Manuel Gonçalves veio ter comigo: “Vamos tomar a alternativa.” Sei que nessa altura houve muitos entraves de pessoas da nossa festa, que tentaram mesmo impedir que eu tomasse a alternativa, mas o Sr. Manuel Gonçalves era uma pessoa de ideias fixas e disse que eu tirava e tirei mesmo. Olhe, eu fui para essa corrida sem me aperceber bem da dimensão que tinha essa data. Chegar e ver a praça completamente cheia, com 13 mil e tal pessoas lá dentro, ao lado das nossas maiores figuras... Mas, se calhar, até foi bom eu não me aperceber bem daquela responsabilidade. Olhe, e as coisas não me podiam ter corrido melhor, acabando mesmo por ganhar o troféu em disputa, coisa mesmo impensável. Foi, sem dúvida, a tarde mais importante da minha carreira.

 

Levou algum tempo até chegar cá acima?
Sim...

 

Porquê?
Depois de uma alternativa como a que tive em Santarém, com um triunfo importante, pensei que se abrissem mais portas em cartéis importantes, em corridas importantes. Por vezes, sei que estava quase metido na corrida e por isto, ou por aquilo era tirado do cartel. Fui novamente para França, fui tourear umas corridas em Espanha. Nunca parei e as poucas oportunidades que tive em Portugal iam correspondendo da melhor maneira. Lembro-me de uma corrida em 94, em Alcochete. Uma corrida Grave em que estava montado o cartel e um toureiro quis sair do cartel, não quis tourear os Graves em Alcochete. Eu fui substituir esse cavaleiro e tive duas grandes actuações em Alcochete. Foi a partir dessa corrida que as coisas começaram a funcionar de outra maneira. Comecei a estar nas principais corridas e a foi assim até hoje.

 

Nos últimos anos tem toureado muito. Uma média de 50 corridas, ora em praças importantes, ora em praças menos importantes. Qual o motivo de tourear tanto?
Porque sou solicitado pelas empresas e pelos empresários. Nos últimos anos tenho sido sempre o líder do escalafón. Esta temporada tinha dito ao meu empresário que iríamos fazer menos corridas e acabei por continuar a ser o que mais toureei. Este ano não toureei tanto em praças desmontáveis mas as praças desmontáveis também fazem falta a todos os toureiros. É nessas praças que nós vamos dando rodagem a cavalos novos, para quando chegarmos às praças ditas de primeira - Lisboa. Moita, Vila Franca, Évora - os cavalos estarem rodados. Por isso lhe digo que essas corridas também fazem parte e são muito importantes.

 

Este ano, na conferência de imprensa feita a meio da temporada em Lisboa para divulgação da segunda parte da temporada, o Sr. Rui Bento Vasques queixou-se, fazendo algumas considerações, como: "... tanto havia figuras em Portugal, que toureavam na quinta-feira em Lisboa, na sexta no Montijo e no Domingo em Paio Pires", por exemplo. Já não sei se foram bem estas as praças referidas...
Claro.

 

Mas acha que era o Luís um dos alvos destas considerações?
Acho que não! Ele deve ter-se referido a nível geral. Não é só o Luís Rouxinol que toureia muitas corridas. Se formos a ver, há para aí toureiros que fizeram muito mais corridas, dessas menos importantes, do que eu. Por exemplo, aqui na minha zona há várias praças. Portugal é um País pequeno, nós vivemos disto, ou tentamos viver dos toiros, e temos que tourear... E compreendo perfeitamente o Rui Bento, mas ele também tem que compreender o lado dos toureiros.

 

Salvo erro, o Luís foi o último cavaleiro a abrir a porta grande do Campo Pequeno. Acha que aquela porta se abriu demasiadas vezes e agora paga o justo pelo pecador, estando fechada? Acha que a porta grande tem uma grande importância na carreira dos toureiros?
A porta grande tem importância na carreira de um toureiro mas, como o Miguel acabou de dizer, se calhar, houve voltas no Campo Pequeno que não justificavam que se abrisse a porta grande. Penso que houve alguns abusos mas o mais importante é chegar a Lisboa e triunfar e os aficionados verem com os seus próprios olhos. E não é preciso a Porta Grande para o toureiro ser mais valorizado. O triunfo, sim, é importante. Isto aqui não é Espanha, não há as orelhas e os rabos. Mas, voltado atrás, tenho mesmo a certeza de que houve voltas que não foram mesmo merecidas.

 

O público de Madrid é o público mais exigente de Espanha. Triunfar lá é difícil, mas, quando acontece, sabe a glória e o triunfo é muito valorizado. Acha que o nível de exigência do público de Lisboa é o mesmo e que os triunfos têm o mesmo significado?
Não! Penso que não. O público de Lisboa, em corridas a que tenho assistido e, nalgumas, até participado, varia muito. Numas há o público mais entendido e talvez mais exigente, mas depois noutras, como, por exemplo, as do mês de Agosto, o público é mais entusiasta. Vão para se divertir, vão para aplaudir. De entre desse público não quer dizer que não haja quem saiba ver e que não entendam nada de toiros, mas, hoje em dia, já não há aquele público como existia antigamente, aqueles 
aficionados que entendiam realmente do toiro. Para os toureiros este público é, sem dúvida, melhor. Acarinha os toureiros, aplaudindo e é bastante melhor, sem dúvida. É mais fácil triunfar em Lisboa do que em Madrid.

 

Quando a figura do forcado é cabeça de cartaz por gesto especial, como, por exemplo, nas três corridas que o grupo de Montemor pegou em solitário - duas de Grave e este ano com os Silvas - o público é desse que o Luís disse que é o mais entendido?
É como lhe disse, esses são exemplos em que o público é mais entendido e aficionado, mas depois, nas outras, é um género de público que só vai a uma corrida por ano e vão lá só para aplaudir os toureiros. Não é aquele público mais exigente, como talvez nós todos desejaríamos.

 

Qual é praça que tem público mais exigente em Portugal?
O público mais exigente, neste momento, está na Moita e em Vila Franca. Vila Franca não tem um público nada fácil. Como se costuma dizer: nada fácil de se meter no bolso.

 

Como é que o Luís classifica o seu toureio?
Pois, o meu toureio... Desde sempre, nunca imitei ninguém. Mantenho o mesmo desde que comecei. É um toureio alegre, de verdade, tento fazer coisas aos toiros. Hoje em dia, não é suficiente meter os ferros, é preciso lidar os toiros, é preciso mexer nos toiros. Eu tenho tentado acompanhar essa evolução. Tento praticar um toureio sério, um toureio de verdade e com alguma emoção.

 

Os cavalos da sua quadra são quase todos, se não todos, postos por si a tourear.
Sim.

 

Os quatro que mais se destacaram esta temporada foram o Dólar, o Zezito, o Ulisses e a Viajante.
Sim, foram os quatro que se destacaram. Foram os cavalos que eu utilizei sempre nas corridas mais importantes. São os mais postos e nos quais deposito maior confiança. Foram os cavalos que me deram os grandes triunfos desta temporada. E espero na próxima poder contar com eles para continuar a triunfar.

 

A Viajante é a estrela da quadra...
Sim, sem dúvida nenhuma. É um animal excepcional.

 

Reparo que, de entre esses quatro cavalos e dos outros da sua quadra, o Dólar usa uma gamarra. Porquê? Tem algum motivo especial para isso?
Sim, o Dólar é um cavalo quarto de milha. Esses cavalos são muito complicados de conduzir, muito complicados de boca. Eu trouxe esse cavalo dos Estados Unidos. Está cá há cinco, seis anos. Foi um cavalo que começou a tourear com quatro anos, sem qualquer arranjo. Foi a meter a andar para diante e começou logo a tourear. Nunca teve ninguém que lhe pudesse dar um arranjo, foi sempre um cavalo difícil. Mas, quando o trouxe, o cavalo já estava muito toureado e foi impossível... Tem que usar a gamarra, mas as gamarras foram feitas para serem usadas. Olhe, até lhe posso recordar um cavalo, que deve ter sido dos melhores do toureio, o Herói do Salgueiro, que era excepcional com a gamarra. Se calhar, sem a gamarra, o João nunca tinha tirado o partido que tirou desse cavalo.

 

Nas sortes do toureio a cavalo quais têm mais valor para si? De frente e ao estribo, ou as sortes de câmbios e quiebros?
Olhe, gosto de ver um bom ferro a quiebro, mas é um toureio que eu nunca pratiquei, nem tentei praticar. Mas veja como as coisas são... Este ano estive na Califórnia e tive lá uma excelente actuação, com um cavalo de quiebros, com o ferro do Pablo. Um cavalo que nunca ninguém lá tinha toureado, excepto o Paulo Jorge Ferreira, que tinha toureado uma vez ou duas, mas estava tão metido nas batidas que teve que ser e tive lá uma actuação muito boa. Parecia que toureava há 2 ou 5 anos a fazer quiebros e eles ficaram todos admirados. Mas é um toureio que eu nunca tentei. Dou mais valor ao toureio de frente, que é mais difícil. E, hoje em dia, também é difícil arranjar um cavalo que entre pelos toiros dentro e quarteie no momento do ferro. Nem sempre é fácil.

 

É um exímio executor dos pares de bandarilhas, chegando mesmo a bordar essa sorte. Conduz os cavalos com as pernas, sem as mãos nas rédeas, nos médios parte de frente e crava ao estribo. Esta maneira de executar assim esta sorte tem alguma dificuldade acrescida...
Claro que tem. Eu, graças a Deus, sempre tive bons cavalos para cravar pares de bandarilhas. Logo no início da minha carreira tive o Bagdade, com ferro Casquinha excepcional. Quem me dera ter ainda hoje esse cavalo. Penso que, da maneira que eu pratico esta sorte, não é fácil.
Hoje em dia, com a Viajante chego a parar a égua a quatro ou cinco metros do toiro, de frente, e coloco grandes pares de bandarilhas. Isso não é fácil. Se for um cavalo a entrar pelo corredor é mais fácil. Vai ali entalado entre as tábuas. Nem todos, mas quase todos os cavalos deixam cravar pares pelo corredor. Agora, nos médios é bastante difícil.

 

Pode dizer-se que o Luís é um toureio todo o terreno. Em relação ao toiro, qual é o que lhe dá mais prazer tourear?
Um toiro que ande e transmita emoção, que ande pelo seu caminho, como é lógico, daqueles toiros que apertam. Penso que são estes toiros que fazem falta à festa, para quem está nas bancadas sentir alguma emoção. Há agora os outros toiros, desses encastes novos que há agora. Os Murubes, são excepcionais para se tourear. Não digo que não gosto de os tourear mas são uns toiros que aos espectadores transmitem pouca emoção e para se tourear esses toiros é preciso ter os cavalos mecanizados para isso.

 

O que acha das exigências de certos colegas seus em relação ao toiro? Pensa que não conseguem tourear os toiros de que o Luís mais gosta, que transmitem emoção?
Olhe, o Pablo e o Ventura só gostam de tourear esse encaste Murube, toiros dóceis, suaves. Não digo que o Pablo e o Ventura, se chegarem cá, não toureiam os toiros de que eu gosto. Penso que os toureiam, mas não os toureiam como eu e como muitos cavaleiros de cá. Penso não, tenho a certeza de que com os cavalos mecanizados como os têm, se apanham um toiro a andar mais destapam-se todos, atravessam-se e não conseguem fazer o que nós fazemos aos toiros. Tenho essa certeza! Os cavalos deles estão postos só mesmo para aquele tipo de toureio. Não vamos mais longe, já os temos visto com toiros desses encastes de que eles tanto gostam que saem a andar um bocadinho mais e as coisas já não são como costumam ser das outras vezes.

 

Não acha que é um bocado exagerada a veneração que existe da parte do público português em relação a certos rejoneadores espanhóis?
É triste vermos isso. Se nós formos a Espanha é completamente ao contrário. Dão muito valor aos seus toureiros e quando lá vai o português é preciso que as coisas corram mesmo bem para o público se entregar como se entrega cá com eles. Qualquer actuação menos boa de um rejoneador espanhol aqui é sempre muito aplaudida... Aqui, eles são mais acarinhados do que nós próprios portugueses e isso é um bocadinho triste de ver nas nossas praças. E às vezes, sem motivo nenhum para isso, o que ainda custa mais...

 

O toureio do Luís é variado. Executa várias sortes que chegam muito ao público. Já lhe passou, alguma vez, pela cabeça arranjar um cavalo para morder os toiros?
Não, isso de morder os toiros não está dentro da nossa tauromaquia. Para isso, arranjávamos um cão! Isso de morder os toiros é uma sorte muito de público, que delira com isso, mas isso não está dentro dos parâmetros do nosso toureio. Pôr um cavalo a morder os toiros... Aliás, os cavalos só podem fazer isso com esses toiros Murubes. Gostava de os ver a fazer isso com um toiro Palha, como eu toureei este ano no Campo Pequeno, com um Silva. Eles só fazem esses adornos em toiros que no final da lide não se movem quase nada.

 

O Luís nunca foi um cavaleiro de fazer grandes incursões em Espanha e França, depois de ser figura em Portugal. Não se sente com vontade de passar a fronteira para o lado de lá?
Já toureei muito em Espanha e em França. Ainda há três anos fui abordado pelo Pablo Hermoso para tourear lá umas corridas para abrir cartel, porque ele não quer abrir as corridas. Fiz lá duas corridas. Tínhamos combinado uns honorários e depois os valores não eram os combinados e assim... de maneira nenhuma. Não valia a pena sair do meu país e ganhar pouco mais do que cá, para mais com a temporada cá sempre bastante preenchida. Isso assim não me compensava de maneira nenhuma.

 

Voltando um bocadinho atrás, o Luís nunca entra cá nesses cartéis com o Pablo, e o Ventura. Porquê? Têm medo de tourear consigo? É o Luís que não quer?
Essa pergunta é assim um bocadinho complicada...

 

Salvo erro, toureou só uma vez com o Pablo no Montijo e outra em Lisboa...
Pois... Como nós sabemos o Pablo é um cavaleiro que tem força. Ele chega aí, impõe os cartéis, mete lá os toureiros que quer... Os toiros que quer... E as empresas fazem-lhe a vontade. Portanto essa pergunta não me deve ser feita a mim, mas às empresas! Não sou a pessoa mais indicada para lhe responder mas não é por mim!

 

Mas acha que não querem tourear consigo?
Essa pergunta tem que fazê-la a eles...

 

Este ano comemorou os 25 anos de Alternativa, as bodas de prata. Como define a sua temporada? Foi uma temporada diferente das outras?
Diferente foi, por comemorar os 25 anos de alternativa. Penso que foi uma das minhas boas temporadas. Consegui manter o nível das actuações. Fui regular e isso, por vezes, é o mais difícil do toureio, ter regularidade. E fazer 50 corridas e manter o nível não é nada fácil. Os cavalos ajudaram para que isso acontecesse. E, ao fim de 25 anos, continuar a ser um dos cavaleiros mais solicitados e continuar a triunfar, como eu tenho vindo a fazer, deixa-me contente. Foi uma temporada que me deixou muito contente. Enquanto cá andar, quero continuar com esta força, com esta vontade, como se estivesse a começar agora.

 

Foi uma das melhores temporadas de sempre?
Sim, foi uma das melhores, não digo a melhor, mas uma das melhores.

 

Como disse, teve grandes triunfos. Quer destacar dois ou três?
A abertura do Campo Pequeno com os Palhas, corrida televisionada, foi uma corrida muito importante, logo no início da temporada. Foi um grande arranque de temporada. Essa corrida moralizou-me muito para o que lá vinha. Vila Franca, com os Canas. Moita, duas grandes actuações com os Graves. Salvaterra, com Coimbras. E a de Évora, com o São Torcato a pedir contas. Eu entendi o toiro e foi uma boa actuação.

 

O mês de Maio foi quase redondo: Vila Franca, Évora, Salvaterra, Moita. Foi, para si, o seu melhor mês da temporada?
Sim, é possível. Às vezes, saber qual é o melhor mês e o pior mês... Uma pessoa que faz cinquenta corridas... Os toiros nessas corridas ajudaram. Eram toiros do tipo que eu gosto e as coisas correram bem. Depois, acontece tourear três ou quatro corridas em que os toiros saem fatais e em que as coisas não correm tão bem. Houve ali uma fase em que os toiros não ajudaram. Mas isto é assim. Depois voltam a ajudar e a coisa começou a correr bem novamente.

 

Também deve ter havido alguma tarde, ou alguma noite menos feliz. Quer destacar uma que o tenha marcado?
Olhe, numa corrida que ia tourear uma ganadaria boa, numa praça desmontável, em que levei três ou quatro cavalos novos e cheguei lá e saíram quatro toiros extraórdinários aos meus colegas e a mim saíram-me dois quase intoleráveis.

 

Isso foi onde?
Na Freixiada, com uma ganadaria boa de Ascenção Vaz.

 

Durante esta temporada toureou dois mano-a-mano. Um com o João Salgueiro em Alcochete, e outro, com o João Moura em Setúbal. Essas corridas têm alguma motivação especial? São diferentes? Gosta de tourear e participar nesses desafios?
São diferentes. Basta ser um mano-a-mano, tourear três toiros. Os toureiros vão sempre com a disposição de se picarem um ao outro. São sempre corridas importantes. E a mim, graças a Deus, correram as duas bem.

 

Qual é que gostou mais de tourear? Ou qual lhe deu mais gozo tourear?
A corrida de Setúbal. Das corridas Passanha que eu vi este ano, toureie mais uma ou duas se não estou em erro.

 

Pelo menos em Torres Vedras e na Moita, que eu me lembre.
Foi isso. Mesmo das que vi na televisão, foi a corrida que mais se mexeu. Os toiros andaram mais do que é costume, os toiros eram mais leves, não tinham aqueles pesos exagerados de 600kg. Isso, por vezes, é um engano. Os toiros andaram e o espectáculo foi bastante agradável. A corrida de Alcochete foi um mano-a-mano com o João Salgueiro. Ele tinha toureado pouco e vinha pronto para triunfar e eu consegui dar a volta por cima. Foram duas corridas diferentes. Mas se calhar a de Alcochete deu-me mais gozo tourear.

 

O Luís é quase conhecido pelo 'papa-prémios...
Quando os consigo...

 

Não fui eu que lhe dei esta alcunha...
Eu sei, eu sei!!

 

Este ano houve menos corridas dessas, talvez devido à crise, ou porque os empresários não as montaram mas mesmo assim ganhou alguns prémios em corridas dessas.
Olhe, de momento, não me lembro de todos mas ganhei em Salvaterra e na Amieira. Mas também lhe digo uma coisa. Às vezes, para fazerem corridas em que os troféus são entregues da forma que eu já tenho assistido nalguns espectáculos é preferível não as fazerem. E não tenho problema nenhum em falar de um caso concreto que se passou este ano na corrida de Albufeira, que passou na televisão, em que penso que tive uma excelente actuação e depois, só o júri é que entendeu que outro cavaleiro ganhava esse prémio. Depois da polémica toda da corrida, penso que, por vezes, para ser assim é preferível não fazerem corridas com troféus.

 

Houve menos corridas dessas, mas a temporada chegou ao fim e os prémios e troféus para triunfadores da temporada começaram a aparecer. Como disse, ainda há pouco, esta foi uma das suas melhores temporadas de sempre. A crítica nas crónicas das corridas foi quase sempre unânime em que o Luís triunfava de corrida em corrida. Não acha estranho não ver o seu nome como triunfador da maior parte dos sítios e blogs da internet e das tertúlias e associações deste país?
Sim, é verdade. Fui dado como triunfador em muitas corridas por sites e revistas. Olhe, ainda na sexta-feira passada estive num colóquio no Montijo, em que duas ou três pessoas pediram a palavra e perguntam como é que depois de uma temporada em que tive a prestação que tive esta temporada não sou considerado o triunfador da temporada por toda a crítica. Nesse colóquio estava uma pessoa da nossa revista mais importante, o Burladero, na pessoa da Catarina Bexiga, e também ela me considerou o triunfador da temporada mas eu já vou estando habituado a isto. Nós sabemos a festa que temos, alguns críticos que temos e como as coisas funcionam... Isso não me abala minimamente. O que interessa é que as coisas correram bem. O público viu e isso é, sem dúvida, o mais importante.

 

Esta temporada foi difícil para os empresários. Houve uma primeira figura que em Maio ameaçou suspender a temporada, porque os empresários não estavam a cumprir a parte deles. O Luís teve algum problema dessa índole?
Como todos sabemos, foi um ano complicado, mas mais ou menos aquilo que se combinou... Este ano recebeu-se um pouco menos nalgumas corridas, mas, pela parte que me toca, não tenho razões de queixa.

 

Acha-se bem pago?
Bem pago de maneira nenhuma! Eu acho que ninguém se considera bem pago. Para mais na situação em que as coisas estão. Neste momento, e mesmo para uma primeira figura, é dificil viver só dos toiros... E quem disser o contrário, digo-lhe já que não é verdade! Excepto claro, no caso do Pablo ou Ventura...

 

Já que falamos de empresários, faça lá esse papel agora e monte lá um cartel em que gostaria de participar.
Olhe, gostava de ver um cartel para o ano aqui no Montijo: Rouxinol, Ventura e Salgueiro, por exemplo.

 

Toiros?
Se toureia o Ventura, já se sabe que tem que ser uma ganadaria de que ele gosta!!

 

Não, ele pode exigir esses toiros e vocês exigem os que vocês querem...
Olhe, nunca me tinha lembrado disso….

 

Partem a corrida..
Exacto, exacto. Nunca tinha pensado nisso, não sei é se eles vão numa coisa dessas...

 

Não acha que alguns toureiros portugueses saem prejudicados toureando só o que eles querem?
Claro que saem. Mas depois, o público bate palmas aquilo! E depois, há actuações em que nós metemos a carne no assador e não dão valor ao que fazemos!

 

Mas se pudesse escolher toiros, quais escolhia?
Uns Pinto Barreiros, uns Graves, uns Palhas.

 

Forcados?
De Montemor e os da minha terra: Montijo.

 

Como avalia, em termos gerais, a temporada que passou?
Olhe, se formos a ver, a coisa até nem correu muito mal, para o que se falava antes da temporada. Penso até que foi uma temporada bastante razoável. Algumas casas esgotadas, outras corridas com boas casas. O Campo Pequeno é certo que teve menos público do que noutros anos. Talvez o momento menos bom tenha sido a feira da Moita, mas, da maneira como as coisas estão, montar seis espectáculos... As pessoas não têm dinheiro de maneira nenhuma. Mas houve quase o mesmo número de espectáculos do que em 2011. Mas isto, todos se queixam que não há gente, mas, se formos ver, se alguma praça for a concurso vai haver empresários a oferecerem milhares de euros para ficarem com ela. Depois, andam a discutir 250 euros de honorários com uma primeira figura. É isso que eu não entendo.

 

Não obstante isso tudo, a crise, os empresários, os 250 euros... O seu filho está a começar. Como é que o vê?
Eu sou suspeito para falar dele, mas, se formos a ver, ele começou há dois anos. Fez a estreia em Serpa e as coisas correram muito bem. Nem eu próprio estava à espera. Ele só tinha toureado vacas e só se tinha agarrado mais a sério três ou quatro meses antes. Ele tem uma coisa muito boa, tem vontade, tem garra, não gosta de perder e isso é bastante importante. E quando as coisas correm mal ele fica chateado e isso, no fundo, é bom. Tenho visto que ele tem evoluído. É pena ele estar a aparecer numa altura em que as coisas estão muito difíceis. Peso que ele tem qualidade e se tiver cabeça e com trabalho pode vir a ser alguém neste mundo.

 

A prova de praticante será para o ano?
Vamos ver. Já pensámos nisso, mas não está nada firme. Depende de como andarem os cavalos. Quando tirar a prova as coisas têm que estar bem firmes, tem que se dar um passo de cada vez e com segurança.

 

Tem outro filho rapaz, mais novo. Acha que também vai sair toureiro?
Eu queria ver se não, mas... Começam a ser muitos toureiros cá em casa. Mas ele leva os dias aí a tourear, é aficionado para diante! Fez anos na semana passada e tive que lhe ir comprar uma muleta e um estoque.

 

Então, esse vai sair matador de toiros?
Sei lá, ele quer ser tudo. Cavaleiro, bandarilheiro, forcado!

 

E a sua mulher? Como vê e vive esta vida de mulher de cavaleiro e agora também de mãe?
Ela já está habituada com o marido. Com o filho, como é normal, custa-lhe mais um bocadinho, mas dá-nos todo o apoio. Isso é bastante importante, a família estar sempre unida.

 

O sr. Mário Freire teve mais de 20 anos a gerir a sua carreira como apoderado. Agora, está com o Sr. Francisco Penedo. Como é a vossa relação profissional? É para continuar?
Sim! Nunca fui uma pessoa de grandes mexidas na equipa. Qualquer bandarilheiro andou cá sempre muitos anos. O Sr. Mário foi até que infelizmente faleceu. Com o Francisco penso que já vamos para o terceiro ano. Isto é uma equipa e penso que para isto funcionar bem temos, acima de tudo, que ser muito amigos. O Francisco é um grande amigo. É uma pessoa que se tem esforçado muito e era uma pessoa que não estava no mundo dos toiros, que nos acompanhou nos dois últimos anos do Sr. Mário. Tem feito um esforço enorme para se integrar nos meadros da tauromaquia e penso que tem feito um bom trabalho.

 

Novidades quanto à quadra? Vai haver?
Sim, tenho um cavalo novo que já saiu aí no fim da temporada e esteve muito bem em Setúbal. Tenho um cavalo com o ferro Vinhas, que também está a dar muito boas indicações. Se tudo correr bem, tenho ali dois ou três cavalos novos para aparecerem.

 

Vai continuar a tourear um número importante de corridas para o ano?
Vamos ver! Vou tourear, mesmo que não faça as cinquenta, umas trinta e cinco corridas. E, se o miúdo já fizer mais algumas do que este ano, mete-lo também aí em corridas mais importantes e eu quero acompanhá-lo mais, porque é esse agora o meu objectivo.

 

Portanto da sua parte não vai haver nenhuma exclusiva, tipo João Salgueiro?
Não, de maneira nenhuma.

 

Um desejo, um sonho para a próxima temporada? Perspectivas?
Sonhos: que o País melhore, assim também melhora a festa dos toiros. Quando as pessoas estão bem economicamente vão às praças. Desejo que seja uma boa temporada. E, no que me toca a mim, desejo que o meu filho consiga atingir o objectivo com que ele tanto sonha, que é um dia, mais tarde, ser figura do toureio. Eu estou aqui para lhe dar todo o meu apoio e transmitir tudo o que eu sei e que tenho aprendido ao longo dos anos.

 

E assim para terminar... O que acha da crítica em Portugal?
A crítica em Portugal é, como em todas as profissões e como em tudo na vida. Há bons críticos e há aqueles que não são bons. Há críticos que escrevem a verdade. E não é por estar ser entrevistado por vocês mas o Naturales é um site que eu vejo e quando leio as crónicas sobre algumas corridas que vi - ou que toureei - o que leio é sobre a mesma corrida que eu estive a ver. E há outras crónicas de outros, em que o que leio não é sobre aquela corrida a que eu estive a assistir. Penso que há críticos que são muito tendenciosos e penso que isso é muito prejudicial para a festa.

 

Obrigado!


in http://www.naturales-tauromaquia.com/categoryblog/3014-triunfadores-naturales-2012-entrevista

publicado por Santos Vaz às 22:11

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