05 de Maio de 2012

A realização de uma corrida de toiros em Barcelos tem dado origem a diversas manifestações a favor e contra a tauromaquia. Para além dos comunicados mais formais, as redes sociais têm sido palco de troca de argumentos e acusações, por vezes de forma muito pouco correcta. Os anti-taurinos têm também espalhado cartazes e faixas por toda a cidade e organizaram duas manifestações, uma no passado dia 15 de Abril e uma anunciada para o próximo dia 1 de Maio. Mais chocante foi o acto de vandalismo sobre a praça de toiros montada para o espetáculo. No dia da Liberdade a praça apareceu repleta de graffitis com frases contra a tauromaquia. Quem o fez teve que invadir uma propriedade privada, mostrando que ainda há muito “Abril” por cumprir e que liberdade e tolerância nem sempre andam lado a lado.

Num anterior artigo, já expliquei os motivos que me levam a defender a Festa Brava. No entanto, a bem da verdade histórica, sinto que devo refutar um dos argumentos mais utilizados pelos anti-taurinos. Dizem os opositores à realização da corrida que no Norte, e em particular em Barcelos, não há tradição tauromáquica, o que está longe de ter qualquer fundamento. Para além de Viana do Castelo e da Póvoa de Varzim, havia praças de toiros noutras localidades bem próximas, como Guimarães, com o curioso episódio deste tauródromo ter sido reconstruído após um incêndio pelo povo da cidade, em apenas 5 dias, para que ficasse pronto a tempo das Festas. Também no Porto existiram várias praças de toiros, inclusivamente uma em plena Boavista. Mas a tauromaquia nunca ficou restrita às localidades onde havia instalações próprias para o efeito. Qualquer terreiro ou largo servia para a realização de corridas, mais ou menos populares. Foi o que aconteceu em Barcelos por diversas ocasiões ao longo dos últimos séculos.

Dos diversos registos encontrados de corridas de toiros em Barcelos o mais antigo remonta a 27 de Setembro de 1733. Também a 10 de Fevereiro de 1735 houve “combate de touros, assistindo o Senado distribuindo prémios a todas as sortes”. Em 1785, nas celebrações do casamento dos infantes de Portugal e Espanha (os futuros reis D. João VI e D. Carlota Joaquina), houve “toiros e cavalhadas” e em Setembro de 1821, a propósito da estadia do Rei em Barcelos, os festejos contaram com “Touros, Máscaras e Baile”. No século XX são diversas as referências a corridas de toiros em Barcelos: nas Festas das Cruzes de 1912 realizou-se um “sensacional corrida de touros”, tendo o mesmo acontecido em 1931, da qual se encontra um documentário na UBI cinema, uma base de dados do cinema português. De então até aos nossos dias foram várias as touradas em Barcelos, tendo a última sido realizada em 2004.

Já por diversas vezes se tentou proibir a realização de corridas de toiros. O Papa Pio V tentou fazê-lo sem sucesso em 1567. Em 1836, durante o reinado de D. Maria II, as corridas de toiros foram proibidas, decisão que causou grande descontentamento popular e que, por isso mesmo, foi revogada logo na Páscoa do ano seguinte. Muitas outras vezes se tentou, por decreto, proibir a expressão desta festa popular. Apesar de tudo, a tauromaquia tem prevalecido. Mesmo a decisão que levou à proibição na Catalunha e que foi tão festejada pelos movimentos anti-taurinos internacionais, está prestes a ser revogada, revelando não ter sido mais do que um mero argumento na luta política independentista.

A discussão continuará, sendo aceitáveis muitos dos argumentos a favor e contra. O que não é aceitável é o insulto, o impropério, a violência e o vandalismo.

 

Artigo publicado no Jornal de Barcelos de dia 02.V.2012

publicado por Santos Vaz às 20:33

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