09 de Fevereiro de 2013
publicado por Santos Vaz às 22:03

05 de Agosto de 2012

MANUEL CASIMIRO DE ALMEIDA é outro filho de S. Pedro do Sul. Nasceu no Bairro da Ponte, em 1854. Concluída a escola primária, cursou o Liceu, em Viseu. Aos 18 anos, partiu para o Brasil, para se dedicar ao comércio, mas a permanência foi curta. Em 1880, fixou residência em Viseu, onde casou. Pelo seu dinamismo e poder de iniciativa, em breve se tornava figura de relevo 

na sociedade viseense. Fundou a Corporação de Bombeiros Voluntário de que assumiu o comando, até ser nomeado Inspector dos Serviços de Incêndios. Pelos serviços prestados à causa dos Bombeiros, recebeu vários louvores e condecorações. Dedicou-se a variadas obras de solidariedade social e desempenhou cargos directivos em várias instituições viseenses. Como industrial, foi proprietário do "Hotel Portugal", ao tempo uma das boas unidades hoteleiras do País.
Toureou, como amador, ao lado de Carlos Relvas, que, impressionado com a sua arte, o incitou a enveredar pela carreira profissional na tauromaquia. Obteve grandes êxitos, em praças portuguesas e estrangeiras, nomeadamente na corrida realizada em 1906, pelo casamento do rei Afonso XIII, em Madrid, onde toureou ao lado de seu filho José. Toureou também no Brasil e em França.

Na sua terra natal, onde começou como amador, toureou também como profissional, aquando da estada da última rainha de Portugal. Deixemos ao cronista o relato de uma dessas touradas:
"Eram 5 horas precisas quando S. M. com seus encantadores filhos, as sr.as condessa do Seisal e D. Izabel Pontes, e os srs. conde da Ribeira Grande, e Dr. Barros da Fonseca, governador civil e secretario geral d'este districto occuparam a tribuna real. Esta estava luxuosamente adornada com colgaduras de damasco e seda, de subido valor tendo no tôpo uma corôa real bem contornada e trabalhada em madeira domada, e com pavilhão real içado, (...) Nos camarotes contigos a élite da nossa sociedade, da de Vizeu, e outros pontos as autoridades, e muitos outros cavalheiros de distincção.

A praça (...) estava apinhadissima. As toilettes das damas davam á praça um aspecto simplesmente bello. Estavam mais de 4:000 pessoas, e maior numero seria se fosse possivel comportar mais. (...)
O espectaculo correu bem. Manoel Casimiro foi felicissimo, correcto e artista. O primeiro touro que lidou era muito conhecedor. Não correspondia aos cites e o cavalleiro só poude enfeita-lo com um ferro á estribeira. O outro que lhe competiu (o quarto) prestou-se á lide, e metteu-lhe um ferro em sorte de gaiola, um excellentemente posto á tira, outro á garupa e um bello par de ferros curtos. Manoel Casimiro foi muito victoriado e chamado á arena"42.

Em Viseu, brilhou também nas touradas em honra da Rainha.

A sua brilhante carreira de cavaleiro tauromáquico terminou em 28 de Agosto de 1921, na praça de Espinho, onde toureou pela última vez.
Monárquico convicto, envolveu-se em lutas políticas, nomeadamente na tentativa de restauração da monarquia em Viseu e outras terras da Beira, em 1919, o que lhe custou alguns dissabores. Morreu em 1925.

Na praça de touros do Campo Pequeno, uma lápida com medalhão de bronze perpetua a memória do brilhante cavaleiro tauromáquico sampedrense, iniciador de uma dinastia de artistas, que inclui a viseense Mirita Casimiro, seu filho José e seus netos, Manuel e José Casimiro Júnior, todos toureiros equestres.



in facebook Aficionados Seia - Serra da Estrela
publicado por Santos Vaz às 08:27

09 de Maio de 2012

Mitra representa uma divindade cuja referência mais antiga remonta ao II milénio a.C.. O culto surgiu na Índia tendo-se difundido pela Pérsia e mais tarde pelo Médio Oriente, sendo que a imagem central do Mitraísmo é a da “Tauroctonia”, ou seja, a representação do sacrifício ritual do touro sagrado.

Enquanto pastoreava nas montanhas, Mitra encontrou o touro primordial, que agarrou pelos cornos e montou, mas a besta com o seu galope selvagem fez com que ele caísse. Mitra continuou agarrado aos cornos do animal, tendo sido arrastado pelo touro bastante tempo, até que o animal ficou cansado. O deus agarrou-o então pelas patas traseiras e carregou-o aos ombros, levando-o vivo até à sua caverna. 

Quando chegou à caverna um corvo enviado pelo sol comunicou-lhe que deveria realizar o sacrifício. Mitra, segurando o touro, cravou-lhe a faca no flanco. Da coluna vertebral do touro saiu trigo e o seu sangue transformou-se em vinho. O seu sémen, recolhido e purificado pela lua, gerou todos os animais úteis ao homem.

A cena surge-nos numa caverna, sendo possivelmente a representação do cosmos, dado estarem presentes o sol e a lua.


 


publicado por Santos Vaz às 20:21

05 de Maio de 2012

A realização de uma corrida de toiros em Barcelos tem dado origem a diversas manifestações a favor e contra a tauromaquia. Para além dos comunicados mais formais, as redes sociais têm sido palco de troca de argumentos e acusações, por vezes de forma muito pouco correcta. Os anti-taurinos têm também espalhado cartazes e faixas por toda a cidade e organizaram duas manifestações, uma no passado dia 15 de Abril e uma anunciada para o próximo dia 1 de Maio. Mais chocante foi o acto de vandalismo sobre a praça de toiros montada para o espetáculo. No dia da Liberdade a praça apareceu repleta de graffitis com frases contra a tauromaquia. Quem o fez teve que invadir uma propriedade privada, mostrando que ainda há muito “Abril” por cumprir e que liberdade e tolerância nem sempre andam lado a lado.

Num anterior artigo, já expliquei os motivos que me levam a defender a Festa Brava. No entanto, a bem da verdade histórica, sinto que devo refutar um dos argumentos mais utilizados pelos anti-taurinos. Dizem os opositores à realização da corrida que no Norte, e em particular em Barcelos, não há tradição tauromáquica, o que está longe de ter qualquer fundamento. Para além de Viana do Castelo e da Póvoa de Varzim, havia praças de toiros noutras localidades bem próximas, como Guimarães, com o curioso episódio deste tauródromo ter sido reconstruído após um incêndio pelo povo da cidade, em apenas 5 dias, para que ficasse pronto a tempo das Festas. Também no Porto existiram várias praças de toiros, inclusivamente uma em plena Boavista. Mas a tauromaquia nunca ficou restrita às localidades onde havia instalações próprias para o efeito. Qualquer terreiro ou largo servia para a realização de corridas, mais ou menos populares. Foi o que aconteceu em Barcelos por diversas ocasiões ao longo dos últimos séculos.

Dos diversos registos encontrados de corridas de toiros em Barcelos o mais antigo remonta a 27 de Setembro de 1733. Também a 10 de Fevereiro de 1735 houve “combate de touros, assistindo o Senado distribuindo prémios a todas as sortes”. Em 1785, nas celebrações do casamento dos infantes de Portugal e Espanha (os futuros reis D. João VI e D. Carlota Joaquina), houve “toiros e cavalhadas” e em Setembro de 1821, a propósito da estadia do Rei em Barcelos, os festejos contaram com “Touros, Máscaras e Baile”. No século XX são diversas as referências a corridas de toiros em Barcelos: nas Festas das Cruzes de 1912 realizou-se um “sensacional corrida de touros”, tendo o mesmo acontecido em 1931, da qual se encontra um documentário na UBI cinema, uma base de dados do cinema português. De então até aos nossos dias foram várias as touradas em Barcelos, tendo a última sido realizada em 2004.

Já por diversas vezes se tentou proibir a realização de corridas de toiros. O Papa Pio V tentou fazê-lo sem sucesso em 1567. Em 1836, durante o reinado de D. Maria II, as corridas de toiros foram proibidas, decisão que causou grande descontentamento popular e que, por isso mesmo, foi revogada logo na Páscoa do ano seguinte. Muitas outras vezes se tentou, por decreto, proibir a expressão desta festa popular. Apesar de tudo, a tauromaquia tem prevalecido. Mesmo a decisão que levou à proibição na Catalunha e que foi tão festejada pelos movimentos anti-taurinos internacionais, está prestes a ser revogada, revelando não ter sido mais do que um mero argumento na luta política independentista.

A discussão continuará, sendo aceitáveis muitos dos argumentos a favor e contra. O que não é aceitável é o insulto, o impropério, a violência e o vandalismo.

 

Artigo publicado no Jornal de Barcelos de dia 02.V.2012

publicado por Santos Vaz às 20:33

03 de Maio de 2012

Lourenço Marques (Mozambique), el 8 de noviembre de 1947

Debut en público: en la plaza de Lisboa (plaza de Campo Pequeno), en 1965. Junto a Antonio do Carmo y Joaquín Barroca.

Debut en Madrid: el 19 de marzo de 1970, junto a Manuel Linares y Rafel Sánchez Vázquez, con reses de El Jaral de Mira y El Pizarral.

Temporada 1970: 64 novilladas.

Alternativa: el 15 de ahosto de 1970 en la plaza de Sevilla (Real Maestranza). Padrino: Antonio Bienvenida. Testigo: Rafael Torres. Reses de Antonio Pérez Angoso.

Temporada 1973: 14 corridas.

Temporada 1974: 18 corridas. El 14 de abril confirma doctorado en Madrid.

Otros datos: cosecha grandes triunfos en la plaza de Maputo. Es uno de los mayores exponentes de la tauromaquia mozambiqueña. De nacionalidad portuguesa. Su padre trabajaba en una pastelería y su madre era ama de casa. Ricardo provenía de una familia pobre, fue desde pequeño aficionado a los toros por los que en su juventud abandona sus estudios de ingeniero agrónomo. Quedará en la historia por ser el primer torero negro. Al comienzo de su carrera se apodaba “El Africano”.

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La leyenda del torero negro

Ya hace tiempo que la festividad de la Virgen de los Reyes, patrona de la capital hispalense, dejó de ser una de las citas más esperadas del calendario taurino. Sin embargo, merece la pena volver la mirada hacia atrás para recordar una de las tardes de glorias más singulares de la que hoy se cumple cuarenta años, pues tal día como hoy tomó la alternativa en la Real Maestranza de Sevilla Ricardo Paulo Chibanga, el primer matador de toros negro africano de la historia.

Si ya de por sí cuesta trabajo pensar que un matador de toros negro pudiera consagrase en la catedral del toreo hispalense, aún más trabajo cuesta imaginar cómo fue posible que Ricardo, oriundo de Mozambique, llegara a ser figura del toreo.

Todo comenzó un 8 de noviembre de 1947, día en el que nace el joven Ricardo Paulo Chibanga en Lorenço Marques (actual Maputo), ciudad que por aquel entonces era la capital de Mozambique. El joven africano se crió en el seno de una familia pobre. Su padre regentaba una pastelería, mientras que su madre aguardaba en casa ocupándose de sus siete hijos, de entre los cuales Ricardo ocupaba el cuarto puesto en la línea de sucesión.

Gracias a la poca distancia que separaba el coso taurino de la casa familiar de los Chibanga, Ricardo comenzaría su primer empleo a los nueve años de edad, el cual consistía en repartir publicidad de los carteles taurinos por los aledaños de la plaza de toros, así como también en la estación de trenes para captar la atención de los turista africanos que llegaban a Mozambique cada fin de semana.

Y fue de esta manera como se fue despertando en el joven africano su pasión por el mundo de los toros. Según contaba Isabel, la hermana mayor del torero, cada tarde cuando Ricardo terminaba de trabajar, regresaba a casa con un par de amigos con los que jugaba con un paño rojo y dos palos que él mismo había adornado con cintas, parodiando a las grandes figuras de la época, tales como Diamantino Vizeu y Manolo Do Santos.

Con el paso del tiempo, Ricardo se va integrando en el mundo taurino hasta que por fín, un apoderado portugués decide apadrinarlo con vistas a poner en marcha un espectáculo cómico en el que el joven africano fuera el protagonista. El joven Chibanga ve así una oportunidad para comenzar y decide aceptar, aunque poco a poco va demostrando que tiene hechuras de torero y que lo suyo va en serio.

Así fue como Ricardo consigue viajar hasta a Portugal en un avión de las Fuerzas Armadas portuguesas para que por fin se forme en una escuela de toreo en la localidad de Golegá. Allí el joven africano comienza una carrera apoteósica como novillero, llegando a participar en los años 68 y 69 en más de 70 novilladas. En ellas destacan sus salidas a hombros gracias a los numerosos trofeos que iría acumulando, tarde tras tarde, en cosos como los de Villafranca de Xiles, Santarem o Campo Pequenho.

Hasta que por fín, un nuevo empresario del mundo taurino sevillano pone los ojos en él, es entonces cuando Ricardo decide mudarse a Sevilla para trabajar bajo la atenta mirada de Manuel Carneiro, quien le ayuda a integrarse entre figuras de la época, como Rafael Torres y Paco Camino, con quienes solía entrenar en un pequeño solar que por aquel entonces se hayaba junto a lo que era el Cine Andalucía.

Es entonces cuando Chibanga comienza a aparecer en los carteles con el pseudónimo de “El africano”, título con el que le bautizó Antonio Maravilla en el año 67 en la Plaza de San Sebastián de los Reyes y que, sin duda Chibanga aceptaría con orgullo.

Y así fue como Ricardo se fue haciendo con un puesto entre los carteles de la época, hasta que por fín llegaría su gran día, pues el 15 de Agosto de 1971 Ricardo tomaría la alternativa en la Real Maestranza de Sevilla, después de que Antonio Bienvenida le cediera la muerte de un toro de 517 kilos de la res de Pérez Angosto y con Rafael Torres como testigo.

Según el propio Ricardo, la gracia de Dios estaba con él, por lo que preparó el mejor su traje, de blanco y oro. Sabía que Sevilla no era una plaza más, sino que toda su carrera dependería que lo que hiciera esa tarde, por lo que no podía haber margen de error. Según cuenta el propio Ricardo Chibanga “la oportunidad que tenía era única, habían venido muchas personas de Portugal para verme y yo no los podía defraudar, de modo que antes de salir a la plaza le recé a la Virgen de Fátima y a la Macarena para que todo saliera bien. Entonces Bienvenida me dijo: Ricardo, buena suerte, tú puedes ser torero, hay que luchar, hay sufrir, hay que pelear, pero estoy seguro que lo vas a hacer bien. Mucha suerte Ricardo. Me dio un abrazo y yo me emocioné. Y así fue, maté al toro de la primera estocada y corte una oreja, la única que se cortó esa tarde”.

Al día siguiente los periódicos de la época destacaban el buen hacer del mozambiqueño en el coso hispalense. El Correo de Andalucía citaba textualmente: “contento puede estar el nuevo matador de toros. Al de su alternativa le cortó la oreja, la única cortada esta tarde. Justa y merecida. Toreó, banderilleó, hizo una gran faena de muela y mató bien. Todo completo, todo sobrecargado de valentía y seguridad.”

A partir de esa tarde de gloria, el joven africano comienza a recorrer los ruedos de toda España codeándose con las grandes figuras de la época. Durante todo un año, el africano cosecha exitos en plazas como Barcelona, Madrid, San Sebastian y Sevilla. La fama de Ricardo se extiende hasta el punto que un año más tarde, repetiría cartel en el ruedo hispalense y de nuevo el día de la Virgen de los Reyes, esta vez acompañado de Rafael Torres y un joven Curro Romero que, sin duda, acaparaba toda la atención del momento.

Según el propio Curro Romero, “la tarde se presentaba calurosa y la gente acudía a la corrida atraídos por la excentricidad que causaba ver a un torero de raza negra, cosa que me preocupaba ya que no sabía nada acerca de Chibanga, no sabía si lo haría bien o mal”. Pero, una vez más, el torero africano dejaba buen sabor de boca entre los aficionados, y eso, a pesar de que esa tarde no hubo orejas.

Ya no cabía ninguna duda, Ricardo sabía torear, y lo hacía bien. Tal y como asegura su compañero Rafael Torres, “Ricardo no sólo sabía torear, sino que era un torero muy completo, pues era de los pocos que se atrevían a poner las banderillas”. Todo ello permitiría a Ricardo que se ganara la confianza, no sólo de sus compañeros, sino dentro de todo el ámbito taurino.

Conviene señalar, que por el color de su piel, Ricardo era un torero distinto a los demás, sin embargo nunca fue víctima de ataques racistas. Así mismo lo asegura el propio Chibanga, quien según dice, nunca llego a temer actitudes en su contra que le puedieran cerrar las puertas en un mundo a priori bastante reservado, y más aún en una ciudad como Sevilla con una idiosincracia un tanto clasista.

Tras los éxitos conquistados por toda España y Portugal, el africano comienza a probar suerte en países como México, Colombia, Macao, e incluso Francia, en donde casualmente conoce al pintor malagueño Pablo Picasso, gran aficionado a los toros, que casualmente había acudido a la plaza de Freijus para asistir a una corrida sin imaginar que se iba a encontrar con un torero negro. Según acredita Rafael Inglada, biógrafo oficial del pintor malagueño, a Picasso le impresionó bastante encontrarse con un torero negro, tras hacer el paseíllo el torero se acercó a este, quien a su vez lo saludó desde la barrera y más tarde invitaba al joven Chibanga a cenar con él y su mujer Jaqueline en el hotel donde se hospedaba. Esa misma noche, el pintor malagueño regalaría al joven Chibanga una de sus obras en agradecimiento por brindarle la muerte del toro.

Pero si había un país que Ricardo quería volver visitar, ese era el que le vio nacer, Mozambique, a donde regresó como matador de toros profesional en el mes de julio de 1973. La visita del joven torero a la Monumental de Lorenço Marques supuso todo un acontecimiento en el país. La plaza no sólo se abarrotó de mozambiqueños, sino que además llegaron muchos sudafricanos atraídos por la fama con la que se había hecho el joven matador de toros. Como cabía esperar, la tarde fue un éxito absoluto, y Ricardo salió a hombros por la puerta grande, siendo aclamado por las calles por sus paisanos.

Durante toda su carrera como matador de toros, Chibanga recibió varias cornadas que a punto estuvieron de quitarle la vida, de entre las que destaca la que recibió en el cuello mientras toreaba en la Monumental de Barcelona. Sin embargo, no sería un toro lo que le haría retirarse de los ruedos, sino los graves problemas de visión que le empezaría a afectar a partir del año 74, año en el que torearía oficialmente por última vez en la colonia portuguesa de Macao, en China. Tras ello, Ricardo decidió establecer su residencia en la localidad portuguesa de Golegá, para comenzar su carrera personal como empresario taurino. Ricardo decidió adquirir dos plazas de toros desmontables para organizar corridas de toros en aquellas localidades en las que no hay coso taurino, un negocio que le mantiene vivo y respetado en el mundo del torero, así lo asugura su compañero luso Vitor Mendes. Tanto es así, que incluso ya tiene una calle que lleva su nombre en la localidad en la que reside.

Hoy por hoy, a sus 75 años de edad, Ricardo es una persona plena, satisfecha, amigo de sus amigos, así lo asegura Rui Sousa, un forcado vecino de Golegá que se ha mantenido al lado de Ricardo desde sus comienzos en Portugal hasta la presente.

Puede que Ricardo no haya marcado un estilo, o una época, pero Ricardo Chibanga siempre será recordado en los anales de la tauromaquia por haber sido el primer matador de toros negro de la historia. © Juan Ramón de la Vega/El Correo de Andalucía, 15/08/2011.

 

 

in http://www.portaltaurino.net/enciclopedia/doku.php/ricardo_chibanga

publicado por Santos Vaz às 12:14

28 de Abril de 2012

Um pouco de história

 

O espectáculo tauromáquico tem uma origem comum em toda Península Ibérica, e passou por uma longa evolução desde a Idade Média aos nossos dias, ganhando em arte, perdendo em crueldade e mantendo uma enorme carga sociocultural e religiosa.
Desde os princípios do século XVII que o toureio começa a estabelecer as suas bases, embora apenas no que se refere à lide a cavalo, com o uso do rojão, consequência da evolução da lança dos torneios mediáveis em que a fidalguia já combatia o toiro, com pouco sentido artístico, mas obedecendo às tradições gerais da cavalaria, coadjuvado a pé, pelos seus criados. A prática do toureio a cavalo era, desde esses tempos, considerada um sintoma de virilidade e de nobreza, obedecendo a preceitos especiais de honra e de cavalheirismo.
Em 1669, Carlos II de Espanha morre sem deixar descendência, sendo o problema dinástico resolvido pelo próprio testamento do monarca que designa para o trono o Duque de Anjou, filho segundo doDelfim de França, que viria a ser Filipe V. de sensibilidade diferente, cedo mostrou o seu desacordo com os espectáculos tauromáquicos e tanto bastou para que os fidalgos, evitando desagradar ao soberano, deixassem de sair a terreiro para dominar e matar toiros. O povo, não sentiu essa necessidade de agradar ao rei e dando largas ao seu entusiasmo, continuou a praticar o toureio, tal como vira fazer aos grandes senhores. Surgem os primeiros profissionais e constroem-se as primeiras praças de madeira, às quais acorre em grande número, um público entusiasta.

A necessidade de abrandar o poder dos toiros, fonte de dificuldades para os lidadores a pé, faz manter o toureio montado, mas com uma feição e objectivo diferente. Deixa-se de utilizar o rojão que é substituído pela vara de castigo (a “puya” dos nossos dias), mas o homem a cavalo, o antecessor do actual picador, continuam a ser a figura proeminente da lide pois os intervenientes a pé apenas mantêm acção de relevo quando empunham o estoque para matar o toiro que, já feridos pela vara, não acometem com o ímpeto indispensável.
A animosidade de Filipe V contra o espectáculo tauromáquico fez com que alguns nobres espanhóis passassem a ser presença assídua em arenas portuguesas, onde o toureio a cavalo florescia, tendo a presença desses nobres espanhóis contribuído para a criação das bases do futuro toureio a cavalo, a partir do tronco comum dos valores das ordens de cavalaria.
O toureio a cavalo em Portugal evolui desde então dentro de um quadro em que a equitação académica renascentista se adapta ao combate cavaleiro-toiro. A essa evolução ficam ligados nomes como os do Marquês de Marialva (1713-1799), Mestre Victorino Fróis, João Núncio (1901-1976), José Mestre Baptista (1940-1985) e João Moura.

Em Espanha o toureio a cavalo (rejoneo) tem um percurso diverso do que se passou em Portugal. O rejoneo vem do campo para a arena. Adapta a uma arena o fulgor das fainas camperas. A equitação de campo, o traje curto a sela de reminiscências árabes e por vezes a garrocha, roupas e instrumentos característicos do campo, entram na arena, onde regressa o rojão, numa forma adaptada às circunstâncias do século XX. Como arte, o rojoneo reaparece nas arena, com D. Antonio Cañero (1885-1952) e vai sempre evoluindo com nomes como os de D. Álvaro Domecq y Diez (1917-2005), Irmãos Peralta, D. Álvaro Domecq y Romero, Manuel Vidrié, até chegar ao esplendor de Pablo Hermoso de Mendoza, ginete que funde na perfeição as escolas portuguesa e espanhola, universalizando definitivamente o toureio a cavalo.
Por outro lado, com a proibição dos toiros de morte, em 1837, abre-se espaço à estruturação dos grupos de forcados que entram na arena para executar a pega de caras, ou de cernelha, depois da lide do cavaleiro, e antes de o toiro ser devolvido aos currais. Os grupos de forcados e a sua forma tão peculiar e única de tauromaquia, desenvolvem-se em Portugal e, nos anos setenta do século XX, começam a constituir-se grupos de forcados no México, por influência portuguesa.
Para além de se disseminar pelas colónias espanholas da América Central e Sul, em Espanha, o toureio a pé evolui até aos altos índices de competitividade corporizados pelas grandes rivalidades históricas que são do conhecimento de todos.


E em Portugal?

Nomeadamente às praças do Campo Pequeno e já antes à do Campo de Santana, vieram todos os grandes nomes do toureio a pé de Espanha, França México, Colômbia, Venezuela e Peru. Estamos a falar de nomes como Lagartijo, Frascuelo, Gallito, Belmonte, Manolete, Marcial Lalanda, Pepe Luís Vazquez, Antonio Ordoñez, “EL Cordobés”, Diego Puerta, Litri, “El Viti”, Paco Camino, “Paquirri”, “Espartaco”, José Tomás, “El Juli”, Enrique Ponce e tantos outros, os mexicanos Rodolfo Gaona, as dinastias “Armilla” e Silvetti, Carlos Arruza, Fermín Rivera, Curro Rivera, Eloy Cavazos, e tantos outros.
Apesar de em Portugal ter predominado o toureio a cavalo, sempre houve grandes aficionados ao toureio a pé, modalidade que também conquistou grandes massas populares. Em Março de 1947, Diamantino Vizeu torna-se no primeiro português a tomar a alternativa de matador de toiros (Barcelona), seguido em Agosto do mesmo ano por Augusto Gomes (Constantina) e por Manuel dos Santos (Sevilha, 15 de Agosto de 1948). Manuel dos Santos, Francisco Mendes e Vitor Mendes são os matadores de toiros portugueses de maior projecção internacional. José Falcão foi o primeiro português a morrer em praça (Barcelona 11 de Agosto de 1974). De 1947 até aos nossos dias foram 34 os portugueses a tomarem a alternativa de matador de toiros.


Toiros de morte em Portugal

O espectáculo de toiros foi proibido em Portugal em 1836, pela rainha Dª. Maria II e de novo legalizado pela mesma rainha na Páscoa de 1837. Todavia desde essa data que ficou decretado o fim das corridas com toiros de morte bem como a obrigatoriedade de os toiros saírem à arena embolados. Contudo e um pouco por todo o lado a proibição dos toiros de morte foi muitas vezes violada.
Nos anos de 1927 e 1933 foram autorizadas a título excepcional corridas integrais (com toiros de morte e picadores) em Lisboa e noutras praças, para fins beneficentes. Todavia, o exemplo não frutificou. Em 1951, Manuel dos Santos matou um toiro no Campo Pequeno, pelo que acabou em tribunal, outro tanto sucedendo em 159 com Antonio dos Santos. No período revolucionário de 1974 e 1975 foram vários os diestros que mataram toiros em Portugal e alguns deles tiveram que enfrentar por esse facto. O último caso de violação da lei aconteceu Setembro de 2001, na Moita do Ribatejo quando “Pedrito de Portugal” matou um toiro, tendo sido condenado em tribunal ao pagamento de uma coima de 100 mil euros.
Na actualidade, estão proibidas em todo o território nacional as corridas com toiros de morte (Lei 19/2002) à excepção das localidades onde haja uma tradição ininterrupta de pelos menos 50 anos. Ora a única localidade portuguesa que cumpre esta condição nestas situações é Barrancos, no Baixo Alentejo em frente a Encinasola onde, pelas festas tradicionais de Agosto, são permitidas corridas com a morte do toiro.


A expansão

Tal como Espanha, que levou os toiros às diversas partes do seu império da América Latina, também Portugal difundiu esta arte pelas suas possessões ultramarinas, mas não só.
Portugal levou a tauromaquia à Ilha da Madeira, aos Açores, (as nossas duas regiões autónomas), Angola, Moçambique e Macau, enquanto territórios sob a sua administração, mas pela diáspora lusitana no mundo levámos também os toiros a França, ao Canadá, aos Estados Unidos, à Indonésia e às Filipinas.
Gostaria de realçar o caso muito particular dos Açores, região atlântica onde existe uma enorme afición, e que organiza, na Ilha Terceira, uma das feiras taurinas mais importantes do território português e cujos emigrantes tanto têm ajudado a divulgar a festa de toiros nos Estados Unidos da América, designadamente no estado da Califórnia.

 

Artigo de Opinião de Dr. Paulo Pereira, Relações Públicas da Sociedade Campo Pequeno, S.A.

 

inhttp://www.regiaoemdireto.com/index.php?option=com_content&view=article&id=128&Itemid=407

publicado por Santos Vaz às 13:05

26 de Abril de 2012

Um Milagre do Bairrismo Vimaranense

 

Há precisamente 62 anos, na madrugada de 28 de Julho de 1947 ardeu completamente a Praça de Touros, onde deveriam realizar-se as Corridas das "Gualterianas". Horas depois do grande incêndio, os vimarenenses impulsionados por extraordinário amor-bairrista decidiram reconstruir a Praça, e o feito concretizou-se com espanto de toda a gente. Tal acontecimento causou brado em todo o país e mesmo além fronteiras...

 

A edição nº809 saída a 3 de Agosto seguinte, relatava deste modo:

«ARDEU A PRAÇA DE TOUROS E, EM 5 DIAS, FICOU RECONSTRUIDA»

Notas dispersas de um grande acontecimento.-« Na madrugada de segunda-feira, irrompeu, com fúria, por causas que ainda se ignoram, um violento incêndio, que ao cabo de uma hora tinha lambido quase completamente a nossa Praça de Touros, mandada construir, este ano, de novo e cuja inauguração tinha sido marcada para hoje.

De nada valeram os esforços dos nossos intérpidos bombeiros que tiveram a coadjová-los os das Caldas das Taipas, nem os populares que ocorreram em grande número ao local do sinistro.

Da nova e elegante praça ficaram apenas os alicerces em pedra, a trincheira e...um montão de cinzas.

A cidade inteira assistiu, emocionada, ao derruir do grande edifício.

Surgiu o desânimo. A cidade, dolorosamente ferida, via que o desastre daquela madrugada vinha ofuscar grandemente o programa das FESTAS DA CIDADE e daí o grande pesar de toda a gente que andava de olhar baixo, meditando.

Começou, porém, de momento, a necessária reacção. A Praça poderia levantar-se de novo, diziam. Desde que se conseguisse materiais e pessoal tudo ainda seria possível, nao obstante estarmos a uma distância apenas de cinco dias.

Foi isto passando de boca em boca até que, levados todos pelo seu grande desejo de contribuírem para a realização desse sonho, se reuniram no Grémio do comércio, às 16 horas, conjuntamente com a Comissão Executiva das Festas, muitos mestres de obras da cidade e conselho e outras pessoas a quem foi posto claramente o problema:

«Será possível dentro destes 5 dias construir-se uma nova Praça?

Ao que responderam em coro :« Desde que as madeiras apareçam sem demora e o pessoal se consiga em grande número, tudo se consegue» Tanto bastou para que tudo se organizasse imediatamente.

Partiram pessoas em todas as direcções: uns a tratar do assunto das madeiras, outros a recrutar o pessoal.

Entretanto, no lugar onde existiu a Praça, compareciam centenas de rapazinhos vindos de todas as ruas que, num gesto digno de registo procediam à limpeza do recinto, onde já se estava a montar o serviço de iluminação eléctrica para o início dos trabalhos.

Enquanto que no Grémio do Comércio numerosas individualidades, á frente das quais os senhores Comendador Alberto Pimenta Machado, António José Pereira Rodrigues, José Rodrigues Guimarães, Eduardo Torcato Ribeiro e outros, estudavam em todos os seus promenores o assunto da construção da nova Praça, agregando elementos indispensáveis, dando instruções e prevendo hipóteses, cá fora, pelas ruas, comentava-se com ar alegre, teciam-se louvores, faziam-se promessas, rejubilava-se, enfim, de tanto entusiasmo.

A «Cabine de Som», instalada na Praça do Toural, levantava ao mesmo tempo o seu apelo, espontâneo e caloroso, em prol do engrandecimento da Cidade, para que todos os vimarenenses, bem unidos, como um só, prestassem a sua colaboração indispensável, no momento, para a construção da Praça de Touros.

Já por essa hora repicavam os sinos festivamente, os mesmos sinos que na madrugada haviam aflitivamente chamado os socorros, e automóveis que tinham também na noite anterior, despertando a cidade com o silvar de suas sirenes, atravessavam agora as ruas, silvando em tom mais alegre.

À noite redobraram de calor as manifestações. Milhares e milhares de pessoas cantando o Hino da Cidade á mistura com acordes musicais de duas filarmónicas - as dos B. V. de Guimarães e das Oficinas de S. José - saíram para a rua. Fizeram-se saudações através de poderosos alto falantes, deram-se vivas, afirmou-se bem alto que o querer é poder e que os vimarenenses tudo podem quando querem.

In Notícias de Guimarães

                                    

Editado pela Livraria Orpheu

Reconstrução em 5 dias da Praça de Touros em Guimarães, por

ocasião das Festas Gualterianas - Ano de 1947

 

in http://livrariaorpheu.blogs.sapo.pt/5536.html

publicado por Santos Vaz às 10:25

15 de Janeiro de 2012

in Prótoiro Facebook

publicado por Santos Vaz às 22:37

07 de Janeiro de 2011

Era no Terreiro do Paço que, segundo o costume, estava armada a praça para se correrem toiros. Esta praça, que occupava apenas um terço do Terreiro, era de dois lados formada pelo palacio real, e dos outros dois lados por palanques de madeira, pintados de encarnado e oiro, e ornados de cortinas de damasco.

Em roda da praça corria uma trincheira pouco mais alta do que um homem; e no meio um grosso mastro sustentava uma varanda, com grades doiradas, onde estavam os musicos; este mastro era na parte superior ornado por um immenso estandarte de seda, em que se viam, de um lado bordadas as quinas reaes, e do outro a imagem de Nossa Senhora. Na parte inferior, uma estacada circular servia para livrar dos toiros os soldados que faziam a guarda da praça.

Da janella central do paço sahia uma grande tribuna de madeira, que fechavam amplas cortinas carmezim com franjas de oiro. Era a tribuna real.

Desde pela manhan que a praça se tinha enchido de povo. Trincheiras e camarotes estavam apinhados de homens e damas cobertas de galas brilhantes. A alegria manifestava-se no rosto de todos; as gargalhadas e os gritos, confundindo-se uns nos outros, formavam um immenso sussurro, que se assimilhava ao rugir do vento por entre a rama de cerrado pinhal.

Era quasi uma hora da tarde, e só se esperava pela chegada de suas magestades para dar principio á desejada festa.

N'um dos cantos da praça, encostados á trincheira, alguns homens do povo manifestavam a sua impaciencia com gritos e discordes clamores.

— Ao meio dia é que os toiros deviam começar — dizia um — e já é...

 

 in "Um anno na corte", Volumes 1-3  por João de Andrade Corvo

publicado por Santos Vaz às 22:12

08 de Novembro de 2010

Ricardo Chibanga faz 68 anos: A aventura do primeiro matador de touros negro

08 de Novembro de 2010, 11:10

 

O toureiro moçambicano foi um fenómeno que percorreu as arenas de todo o mundo, ovacionado por Pablo Picasso e Salvador Dali, e reconhecido pela sua coragem e destreza diante dos touros, formando com a Amália Rodrigues e Eusébio o triunvirato dos embaixadores de prestígio de Portugal na época.

Para um matador de touros, dizem, o mais importante de tudo é a firmeza da sua mão direita e a argúcia dos seus olhos. Eu tinha a sua mão fechada sobre a minha e o seu olhar terno e caloroso convidava-me a sentar. Aquela mão que matara dezenas de touros na arena, em combates entre a vida e a morte, tantas vezes descritas por jornalistas, escritores e aficionados.

Os olhos nunca falham. Não podem. Têm de medir as distâncias e avaliar o momento certo. A mão de Ricardo Chibanga, que agora apertava a minha, fora a mesma que suspendera, nas bancadas da praça de touros de Las Ventas, em Madrid, e em Sevilha, a respiração de aficionados como Pablo Picasso, Salvador Dali e Orson Welles, antes de uma explosão de júbilo e regozijo, cujo fascínio e olhar poético só os verdadeiros amantes das corridas podem explicar.

No mesmo ano em que o jovem Chibanga desembarcava em Lisboa, 1962, Ernest Hemingway  (que escreveu entre outros, ‘Morte ao Entardecer’, o livro que fez mais pela divulgação das corridas de touros no mundo do que qualquer outro) punha um fim à vida com um tiro de caçadeira na boca, na sua propriedade de Idaho. Amante da festa brava, desde a Feria de San Fermín, nos anos vinte do século passado, Hemigway partiu sem conhecer Ricardo Chibanga. Teria por certo gostado de ver o matador moçambicano na arena e de lhe apertar a mão, no final de uma faena.

Durante meses, o encontro com aquele que é considerado o primeiro matador de touros negro de toda a História foi sendo adiado por questões de agenda e mais tarde por uma inusitada operação às cataratas. Mas eu tinha de conhecer o mestre. Depois de obter luz verde fizemo-nos à estrada. A tempestade e o céu carregado de Lisboa foram dando lugar a uma brisa outonal e ao chegarmos à Golegã, as folhas das árvores da praça central estavam tão mudas como a estátua do toureiro Manuel dos Santos, o grande responsável pela vinda de Ricardo Chibanga para a Metrópole.

 

O menino da Mafalala


A mão delgada e gentil, o nervosismo antes da entrevista. Muito antes de segurar a capa e a espada, aquela mão franzina ajudara a limpar a antiga praça de touros de Lourenço Marques (uma das quatro existentes em toda a África), nos anos cinquenta, ali a dois passos da sua casa, no bairro da Mafalala, e colara cartazes pela cidade, anunciando a chegada das corridas da Metrópole, que se realizavam nos meses de Dezembro, Abril e nas festas de Junho.

Aos 14 anos, Chibanga apaixonou-se definitivamente pelos touros e por aquela arte tão remota e estranha à sua cultura, que deixava os amigos perplexos. O futebol não era desafio para ele. As suas pernas estavam destinadas a outros palcos, a outros trajes. Filho de uma família muito pobre, não havia dinheiro para as entradas e ajudar na organização dos espectáculos sempre podia garantir-lhe um lugar nas bancadas.

Vacas e bezerros

Vídeo: Entrevista a Ricardo Chibanga, na Golegã

 

 

Vacas e bezerros

Em 1962, dois jovens moçambicanos, Ricardo Chibanga e Carlos Mabunga, tiveram talento e coragem suficientes para convencerem o empresário Manuel dos Santos a interferir junto do governador-geral da província para que os enviasse para Portugal, para aprenderem a nobre arte do toureio. Antes, o próprio Eusébio, também ele natural da Mafalala, e numa das suas viagens a Moçambique, disse-lhe que se ele gostava assim tanto de touros o melhor mesmo era mudar-se para Portugal.

Os três meses de estágio souberam a pouco ao jovem Chibanga. E depois de cumprir o serviço militar, em Lisboa, decidiu que ainda era cedo para regressar a Moçambique e rumou à pequena cidade da Golegã, terra de touros e cavalos, situada a 100 quilómetros a norte da capital, disposto a tudo para se tornar num verdadeiro toureiro. Mas à sua espera havia apenas bezerros e vacas e muitas horas de trabalho duro pela frente.

Na região há quem se lembre ainda dos touros corridos e das verdadeiras ‘tareias’ que Chibanga apanhava durante essas ‘vacadas’ iniciais. O moçambicano era destemido, sem dúvida, e para algumas pessoas até um pouco ‘maluco’. No entanto, era inequívoca a habilidade e o talento que ia demonstrando, de ano para ano, nas feiras onde se apresentava. O aprendiz Chibanga não estava disposto a tornar-se apenas numa nota de rodapé na história do toureio nacional.

Por entre a luz e a sombra, os anos foram passando e Chibanga aprendeu a conhecer os touros com os melhores mestres e ganadeiros locais e passou a respirar o pó da arena, como se nada mais do que esse horizonte de encantamento lhe estivesse destinado na vida

Da Golegã para o mundo

Os olhos que agora me observavam eram os mesmos que recordaram o medo ao verem surgir na sua direcção o primeiro touro a sério, na praça de touros do Campo Pequeno, no ano de 1968. Os mesmos olhos que veriam a admiração no rosto do público, nas bancadas, por um africano poder sair-se tão bem na lide de uma besta mortífera de mais de quinhentos quilos. Nas suas casas, os portugueses também viam, nos directos da RTP – quando o sangue era apenas uma pasta escura e brilhante que escorria pelo dorso do animal - , a coragem, os reflexos e a velocidade felina daquela nova figura, que ia ao ponto de enfrentar o touro de joelhos e cuja cor da pele contrastava, furiosamente, com o brilho prateado e reluzente do fato.

Para as crianças de então, a sua coragem não era tão perturbadora nem aflitiva. O super-Chibanga era um novo super-herói. E a impressão de magia que causava na arena era reveladora de toda a beleza dos seus movimentos; da paixão pela sua arte, a de um condutor do espectáculo. No fundo, era o rapaz da Mafalala perseguindo a grandiosidade. E Ricardo Chibanga passou depressa de promessa da arena a estrela em ascensão.

Seguiu-se a Espanha. Sevilha e mais tarde Madrid consagrá-lo-iam definitivamente, e os jornais, entusiasmados com esta nova descoberta, teciam rasgados elogios de página inteira sobre El Africano, e festejavam a chegada do primeiro matador de touros negro da história da tauromaquia. No dia em que a morte roçou-lhe a figura através de uma cornada inesperada nos queixos, os jornalistas acompanharam diariamente o coma de Chibanga, mantendo o mundo da afición num suspense permanente, que haveria de durar várias semanas.

Quando Chibanga finalmente regressou, Picasso declarou aos jornais, do alto dos seus 89 anos, que o moçambicano era dos poucos matadores capazes de o levarem a uma corrida. E nas bancadas o mestre não parava de gritar: “Olé! Chibanga!”

O homem afável de óculos de aros de massa, que de um canto do Café Central da Golegã cumprimenta os amigos, atingiu o estrelato como poucos na sua arte; apertou a mão e conviveu com artistas portugueses e internacionais e jantou com as maiores figuras do seu tempo. Christian Barnard, o cirurgião sul-africano, autor do primeiro transplante cardíaco, e o multimilionário Stanley Ho, fizeram questão de o conhecer pessoalmente e expressar-lhe toda a sua admiração. E o que terão visto nele foi que a grandiosidade que o acompanhava residia na humildade. Que a vida toda lhe pertencia.

O matador africano atravessou o Atlântico para encantar a Monumental do México, as praças da Venezuela, Colômbia, Califórnia, formando, ao lado de Amália Rodrigues e do seu compatriota Eusébio, o triunvirato dos embaixadores de Portugal de maior prestígio, entre os finais das décadas de sessenta e inícios de setenta. No dia da sua consagração, na Maestranza de Sevilha, quando se preparava para tomar a sua alternativa, e a mando do governo português, a RTP deslocou uma equipa de técnicos e jornalistas para relatarem e transmitirem em directo o grande acontecimento.

A mão certeira de outros tempos interrompe a conversa, retira do bolso um lenço e seca a prótese ocular lacrimejante. Certa vez, na arena, conta Chibanga, durante uma lide de joelhos, o touro roçou-lhe o ombro com o flanco e uma das farpas espetadas no dorso do animal destrui-lhe por completo o olho esquerdo.

Depois de se apagarem as luzes das grandes praças internacionais, Chibanga mandou construir uma desmontável e estabeleceu-se como empresário, na região da Golegã, levando as corridas de touros às cidades do interior. Hoje, por onde passa, o velho matador é uma figura querida e estimada, cumprimentada pelos habitantes da região. O brilhantismo da sua carreira está ainda bem vivo nas suas memórias.

Ricardo Chibanga é simples, sem qualquer traço de apoteótico na sua expressão. É óbvio nele o impulso religioso, talvez preenchendo agora mais o espaço onde antes existiram a aventura e o medo. Afinal, matar touros na arena, sob o olhar de milhares de espectadores, não se faz sem um certo grau de religiosidade, uma espécie de liturgia, que pelo menos possa fazer parte de algo grandioso e importante. “A fé, a vontade de triunfar”, podem ser um princípio espiritual e serve para explicar essa vertigem tão antiga e tão profunda, parte da própria condição humana.

Aos 68 anos (completados a 8 de Novembro), Ricardo Chibanga tem uma vida centrada nos amigos,

nos outros, não tendo muito tempo para elogios. A sua atenção é bem-humorada, e não se coíbe de ligar a um ou outro amigo famoso para facilitar um encontro com o jornalista. Na sua casa situada da zona histórica da cidade, convida-nos para uma sala ampla com lareira, uma espécie de museu das suas recordações: duas imponentes cabeças de touro na parede, cartazes de corridas espanholas e portuguesas, fotografias, quadros pintados a óleo do matador enquanto jovem, um dossiê repleto de recortes de jornais internacionais.

Mas imagens televisivas das suas corridas não existem: a RTP negou-se a facultar-lhe cópias. É aqui que recebe os amigos. E a sua maior preocupação de momento, confessa, com aquela honestidade típica dos aficionados, é ter tudo pronto a tempo para o próximo São Martinho. Um Mercedes branco solitário, estacionado ali mesmo ao lado, vai ganhando poeira.

A vida heróica entrou agora naquela lassitude em que o regozijo máximo de um momento pode estar num bom bife à casa, servido com batatas, em terra de ganadeiros. A impressão que fica, depois de uma conversa e de um almoço bem-humorados, é a de alguém que procurou sempre a felicidade, empurrado – sem o saber – pela glória; alguém submetido à necessidade de criar qualquer coisa de distinto, um acontecimento onde todos os seus elementos e participantes estariam garantidos pela fé contra a insuficiência da vida. O mundo sem Ricardo Chibanga não teria sido melhor. No seu olhar há amor, o tipo de amor insuflado por alguma coisa inominável, que ao longo da vida o escolheu e lhe foi abrindo portas, sem qualquer tipo de renúncia em troca. A história da passagem de Chibanga pela Golegã não está destinada a constar apenas nas páginas dos jornais ou revistas da especialidade. Como se não bastasse a memória dos homens, a placa escolhida pela Câmara Municipal para perpetuar o seu nome à sua terra adoptiva: “Rua Ricardo Chibanga, Matador de Touros, aluno da Escola de Toureio da Golegã, que tomou alternativa na Real Maestranza de Sevilha, em 15 de Agosto de 1971” revela toda a ternura que a cidade nutre por ele. Uma homenagem rara ainda em vida a um dos seus filhos mais ilustres.

A mão certeira e implacável de outros tempos afaga o mármore para a fotografia e os dedos percorrem timidamente as palavras da dedicatória. O orgulho e o reconhecimento no olhar. O tique que reconstrói a infância. A longínqua Mafalala na curva do voo de um pássaro. O coração feliz. “Sou um homem feliz, na cidade que eu amo”.

 

Texto:  Joaquim Arena@

Fotos: Clair Cunha

http://noticias.sapo.mz/info/artigo/1104785.html

publicado por Santos Vaz às 12:30

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