15 de Maio de 2010
O Toureio a Cavalo, de Fernando Sommer D'Andrade Citar é o acto de chamar, de fazer comparecer ao encontro, de determinar o toiro a que invista. Pelo citar, deve o cavaleiro fazer-se ver pelo toiro, prender a sua atenção, mostrar que não o deseja surpreender, caso em que deve ser tomado como falta de confiança nas suas possibilidades, quando não de medo. O citar pode e deve ser feito com graça leveza, de modo a entreter o público, mas pode o cavaleiro fazer muitas e bonitas habilidades ao citar, se o toiro não estiver com atenção ao cavalo quando este parte na sua direcção, não passa de teatro sem valor tauromáquico. É uma mentira! Pode citar-se parado ou em movimento, de largo ou em curto. Quando em movimento, deve o cavalo avançar ,muito lentamente se o toiro for "suave" ou mais ligeiro no caso de o toiro ser "duro". Quando o toiro é "tardo", tem o cavaleiro de aproximar-se, de porfiar em curto para provocar a investida.» - O AGUENTAR - « Provocada a investida, para cumprir com a regra de não fugir, ou sequer virar a cara ao adversário, tem o cavaleiro de aguentar a investida sem sair da trajectória do toiro.» - O TRAZER O TOIRO TOUREADO - «Quando o toiro entra no terreno de jurisdição, para que este mostre que manda no toiro, tem de o trazer, passo a passo, sob o seu domínio sem que, em momento algum, o toiro passe a ter o comando das operações. No toureio a cavalo, deve o toiro ter como fulcro ou alvo do seu ataque o peito do cavalo. O cavalo deve ganhar o corno direito ao "toiro" para iniciar o quarteio ou de largo, segundo a vontade do cavaleiro, ou em curto, depois da "batida" que efectuou para "carregar a sorte", trazendo o toiro toureado, sempre ligado a si, sempre atento aos movimentos do peito do seu cavalo, aproximando-se paulatinamente mas segundo o ritmo imposto pelo cavaleiro. É nisto que reside o "mando". Para o conseguir, tem o cavalo de se mover de maneira a esconder a garupa por detrás das espáduas ao executar o quarteio. Se, em dado momento, por atraso da garupa ou por tirar demasiadamente a frente, passa aquela a ser o fulcro da atenção do toiro, perde-se o mando, perde-se a reunião. Também se perde o mando quando, por falta de aguentar a investida, se inicia o "quarteio antes de tempo", e o toiro, adivinhando a trajectória do cavalo, lhe sai por diante e o obriga a fugir para não ser agarrado, em vez de o trazer toureado, mandando na investida. Nesse caso, é o toiro que manda, que impõe a fuga, e diz-se que o cavaleiro "toureou pela cara".» - A VIAGEM - «A viagem é o terreno percorrido pelo toiro entre o sítio onde iniciou a sua investida e o toureiro que o cita.» - A JURISDIÇÃO - «Quando o toiro entra no terreno da jurisdição do cavaleiro, isto é, chegando ao terreno em que passa a ficar sob a influência do toureiro, do seu mando, distância variável conforme os toiros e a sua codícia, velocidade da investida, o cavaleiro carrega a sorte.» - O CARREGAR A SORTE - Chama-se carregar a sorte ao acto de levar o toiro a abandonar a trajectória da sua viagem, obedecendo ao mando do toureiro que o engana por meio de um simulacro, um "dribling" como no futebol.» - O QUARTEIO - «O quarteio é o movimento que o cavalo executa envolvendo o toiro com uma trajectória em arco de círculo que cinja o toiro, para levar o cavaleiro a efectuar a reunião. Neste quarteio, o cavalo deve executar o quarto de círculo deslizando com a garupa para fora de modo que, passada a passada, vá ficando com o toiro sempre por diante do "estribo" do cavaleiro, sob o comando deste. O cavalo, enrolado sobre o toiro, deve olhar sempre para ele: dar a cara ao toiro. Quando passa por direito, diz-se que passou pela cara...e é SINÓNIMO DE FUGA OU POUCO AGUENTE.» - A REUNIÃO - «A reunião é o momento da sorte em que o toiro, enganado pela trajectória do cavalo, se esforça por "agarrar" este por altura das silhas, ao estribo, de modo que o cavaleiro pode feri-lo por detrás da cartilagem da omoplata, junto à espinha dorsal do toiro, sem ter de se esticar, "PESCANDO" o ferro de longe, nem contorcer-se na sela para trás, a fim de cravar a "SILHAS PASSADAS", porque deve estar no "centro da sorte".» "O CENTRO DA SORTE"- «Centro da sorte, dizem os tratados de tauromaquia, é o ponto ideal onde as trajectórias do cavalo e do toiro se cortam. O cavaleiro deve estar sobre o centro da sorte no momento em que crava o ferro. Tem pois de cravar o ferro um momento antes que o toiro chegue a esse ponto para não ser colhido. Para que isso possa suceder, sem que o cavaleiro tenha "pescado" o ferro de longe, tem de fazer o cavalo executar o quarteio "tirando-se", isto é, deslizando para fora com a garupa de forma a não ter de "sacar" esta depois de cravar o ferro, mas já a ter de fora no acto de cravar. Nas fotografias tiradas antes do cravar do ferro, chamo a atenção para que se veja se o cavalo está com as mãos no chão sacando a garupa, pois no caso de ter as pernas no chão e estar a sacar de frente, poderá ainda vir a atravessar-se antes que o cavaleiro crave o ferro, passando a ser o "sobaquilho" aquilo que aparentemente seria uma boa reunião. Com as mãos no chão não poderá atravessar-se, só lhe restando a alternativa de uma reunião ou uma colhida. Na reunião bem executada, o cavaleiro aponta o ferro "assomando-se ao balcão", inclinado para diante, e é o toiro que, com o seu balanço, vem espetar-se no ferro e não o cavaleiro que, vendo o toiro a fugir-lhe, por não estar no sítio, isto é, no centro da sorte, tem de contorcer-se para trás e atirar à pressa uma punhalada com o ferro para poder alcançar ainda o toiro. Quando tal acontece, é uma prova de falta de confiança em si e no seu cavalo, pois cuida primeiro de ganhar a cara do toiro e só depois de estar certo de que o perigo passou se decide a cravar o ferro, o que terá de ser feito já depois de o cavalo ter passado o centro da sorte e o toiro se apresentar, por conseguinte, por detrás do cavalo; ou então é prova de que se errou a sorte por excesso de preocupação no carregar da sorte. Por outro lado, se tudo se passar correctamente, o toiro, ao pensar que vai atingir o cavalo, humilha, arma o derrote, posição que lhe embaraça a corrida; ao ser fintado, enganado pelo carregar da sorte, perde ainda mais velocidade para se reequilibrar, metendo os rins e as pernas; perde ainda mais velocidade ao lutar contra a força centrífuga que tende a afastá-lo do seu intento devido ao arco a que o cavalo o obriga por meio do quarteio.Tudo isso permite ao cavaleiro "templar", isto é, determinar um abrandamento da velocidade da investida do toiro e, como resultante deste conjunto de coisas, demonstrar que mandou no toiro e não andou ao sabor dele, fugindo nem que fosse pelo virar da cara.» "A POSIÇÃO NO ACTO DE CRAVAR" - «Na reunião, o toiro deve chegar ao cavalo por altura do estribo ou da silha. Pode contudo apresentar-se vindo de diante, na perpendicular ou já perseguindo. Daqui resulta que a colocação do ferro possa ser catalogado como "por diante do estribo", ao "estribo" ou "atrás do estribo".No ferro cravado bem por diante, ainda por altura do peito do cavalo, diz-se "ao peito do cavalo"; se chega ao cavalo por altura do "vazio", diz-se a "silhas passadas"; se chega já por alturas da garupa, diz-se "a cavalo passado". A cada forma de reunir se atribui um mérito, tanto maior quanto mais por diante for colocado o ferro, pois como é óbvio, mais difícil e perigosa se torna a sua execução, mais qualidades e preparação necessitam ter cavalo e cavaleiro. De facto, no ferro colocado a cavalo passado, o cavaleiro desdobra o problema: primeiro cuida de fazer passar o cavalo, de ganhar a cara ao toiro; depois de esconjurar esse perigo, que é o maior, debruça-se para trás e, à pressa, atira com o ferro para cima do toiro antes que ele se afaste demasiadamente e não possa chagar lá com o braço. No ferro à espádua do cavalo, o cavaleiro resolve os problemas ao mesmo tempo: safar o cavalo, fazer pontaria para colocar o ferro, sofrendo a sacudidela provocada pelo quarteio, a furta do cavalo, mantendo a descontracção, para fazer a pontaria, ao mesmo tempo que tem de se segurar na sela para não cair. É bom não esquecer que o maior perigo do toureio reside na colhida em cheio, no momento em que o cavalo vai em desequilíbrio, e não no simples toque na garupa, por muito forte que seja, pois raramente provocará a queda. - O REMATE DAS SORTES -«Depois de cravado o ferro, para mostrar que não houve fuga, o cavaleiro DEVE CONTINUAR A ENVOLVER O TOIRO COM O QUARTEIO, brincando com o toiro, fazendo espectáculo.» - A COLOCAÇÃO DA FERRAGEM - «Conforme a posição em que a ferragem fica cravada no toiro, se diz que é normal, dianteiro, traseiro ou descaído. As formas mais afastadas no normal são testemunho de menos à-vontade do cavaleiro no acto de cravar, havendo mais desculpa quando as velocidades dos dois animais se somam, quando a reunião é mais cingida E mais por diante. OS CAVALEIROS QUE CRAVAM A SILHAS PASSADAS NÃO FALHAM.» 1 - A SORTE DE CARAS - «Esta sorte é a única que tem todos os atributos de uma sorte executada com todos os primores da tauromaquia, com todos os tempos. Pode ser feita em todos os terrenos, desde que o toiro invista e humilhe. Desde a sorte de poder a poder até ao quiebro, com ela todas as cambiantes são possíveis. Para executar a sorte de caras com todos os predicados que lhe são devidos, deve o toiro ter investida, ser claro e ter bom estilo. Quando faltar ao toiro um destes predicados, ao cavalo obediência ou ao toureiro coração, então tem de se condescender com algum dos predicados acima descritos. Da adulteração desta sorte, por falta de "carregar a sorte", cai-se na SORTE À TIRA.» 2 - SORTE DE LARGO - «Como o nome indica, denominam-se assim as sortes em que o citar é feito à distância e o toiro é pronto e acode alegremente, de largo. É também mais difícil de medir o terreno e mais perigoso por o toiro ter tido tempo para embalar, ganhar velocidade, tomar consciência do que vai fazer e, consequentemente, no caso de errar a medição da batida, a colhida tem maior violência.» 3 - A SORTE DE PODER A PODER -«Diz-se da sorte de largo, a dois tempos, em que o cavaleiro e o toiro, estando ambos encostados às tábuas, diametralmente opostos, saem ao encontro um do outro, a todo o correr, para reunir ao centro da arena. É UMA SORTE DE GRANDE VALOR TAUROMÁQUICO E ESPECTACULAR.» 4 - A SORTE RECEBENDO - «Diz-se que a sorte é recebendo quando o toiro acode ao cite investindo contra o cavaleiro que o espera parado ou em andamento muito lento. Quando o cavaleiro recebe o toiro parado e o engana, com um simples "carregar a sorte", chama-se "quiebro". O quiebro, quando bem executado sem que o toiro seja demasiadamente "atirado" para fora, é de grande valor tauromáquico pelo que representa de estoicismo no aguentar, de confiança na obediência do cavalo, da medição de terrenos, de conhecimento das características do toiro. Quando mal executado, resulta num ferro a "cilhas passadas", quando não a cavalo passado, o que representa apenas boa vontade de mostrar o que não pôde provar na prática: VALENTIA!» "A SORTE À TIRA" - «Esta sorte contém o citar, o aguentar, mas já não o carregar da sorte e, por isso, o templar. Porque o cavaleiro não pode mais do que acoplar-se à investida do toiro, modulando a velocidade do cavalo de modo a enganar o toiro, falta-lhe igualmente, em grande parte, o mando.» 1 - A TIRA DE FRENTE - «Diz-se tira de frente quando o cavaleiro cita, parte antes do toiro ou inicia a viagem citando mas, SEM AGUENTAR A INVESTIDA do toiro, modifica a trajectória do cavalo AFASTANDO-SE DA DIRECÇÃO INICIAL, regula a passada de modo a enganar o toiro que, avaliada a trajectória do cavalo e a sua velocidade, se esforça por lhe sair a caminho. Chegando à jurisdição, o cavaleiro ACELERA O SEU ANDAMENTO E GANHA A CARA DO TOIRO. A sorte à tira de frente pode ser intencional ou uma DERIVANTE DA SORTE DE CARAS por imperativo de uma falta do TOIRO, DO CAVALO OU DO CAVALEIRO. Na sorte à tira, quando intencional, é desde o início desenhada a trajectória que levará o cavalo a ganhar a cara do toiro. muitas vezes, porém, o cavaleiro sai recto com o toiro como para a sorte de caras mas, a certa altura da viagem, por alguma ou algumas das razões atrás apontadas, vê-se na necessidade de mudar a sua intenção e, afastando-se da linha inicial, passa à tira de frente. A tira de frente, quando intencionalmente realizada, deve ser apreciada como uma sorte com mérito tauromáquico e atlética, pois exige do cavalo grandes recursos físicos e do cavaleiro uma boa medição dos terrenos e a possibilidade de regular a passada do cavalo. A reunião é possível, em boas condições, uma vez que o toiro se apresenta pela frente do cavalo.» 2 - A TIRA NA PERPENDICULAR - «A tira na perpendicular resulta normalmente da tira de frente quando o toiro não acode ao cite, tarda, e só acomete quando o cavalo já vai adiantado na sua viagem. Acaba o toiro por acometer quando o cavalo se encontra sobre a perpendicular à trajetória que finalmente a sua investida toma. Esta tira resulta geralmente da falto do toiro. Difere da tira de frente pelo ângulo de ataque do toiro, sendo em tudo mais semelhante na sua execução. A reunião existe, mas é mais difícil ser executada nas melhores condições e, não raro, o ferro resulta a cilhas passadas.» "A SORTE AO SESGO" - «Diz-se da sorte que é efectuada ao correr das tábuas, ensesgada relativamente à arena. O toiro, enquerençado em tábuas, não quer afastar-se delas. O cavaleiro coloca-se junto às tábuas, tendo-as à sua direita, diante do toiro, e cita.Por vezes o toiro investe ao correr das tábuas. Outras vezes tarda e é necessário "pisar-lhe" muito o terreno. O cavaleiro pode executar ao sesgo sortes de caras, à tira ou à meia-volta, segundo a prontidão com que o toiro invista. No caso de ter de recorrer à meia-volta, o peão chama a atenção do toiro para as tábuas, colocando-o atravessado em relação ao cavaleiro apenas o necessário para a consumação da sorte e o cavaleiro atira o cavalo contra o flanco do toiro que, por reflexo instintivo, se volta ao sentir chegar o cavalo e, neste movimento o cavaleiro aproveita para cravar o ferro, afasta-se das tábuas quanto baste para permitir, normalmente, que o cavaleiro remate a sorte por dentro, isto é, passando entre o toiro e a trincheira. Esta passagem apertada é de grande efeito espectacular. Todas as sortes ao sesgo devem ser rematadas por dentro.» Do livro "O Toureio Equestre em Portugal" de Fernando Sommer D'Andrade José Barrinha Cruz
publicado por Santos Vaz às 20:04

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